segunda-feira, 25 de abril de 2011

A OPÇÃO IBÉRICA - II

( Ibéria ou Hispânia ?  -  Ensaio Iberista   -  2001 )

…Mas porquê agora esta ideia de uma adesão nossa ao resto da Hispânia ?

Porque Portugal sozinho é inviável!  …Porque Portugal, sem colónias e isolado é economicamente impossível.

Mas então como é que nos aguentámos até aqui?                                  …Com as reservas em divisas, provenientes das Colónias, sobretudo de Angola, que o Estado Novo tinha conseguido acumular, mesmo através das situações de guerras coloniais dos ultimos tempos, “reservas” que terão durado até ao fim dos anos 80.     Daí para a frente vivemos das “ajudas” da Europa e das “pensões” dos emigrantes.  …Mas já não há colónias, as pensões dos emigrantes são cada vez menos,  …e o feed-beck da União Europeia está próximo do fim!                                                  Espera-se que, com um novo Governo as coisas melhorem, …e até pode ser que apareçam, “de outro lado”, novos auxílios estrangeiros.  …Mas nada será eficaz, nem definitivo, e a verdade é que este país nunca chegou para nos sustentar.

Reportando-nos às origens, começaram os “primeiros portugueses” a sair do Condado para arrebatar terras aos moiros, pela Beira e pelo Alentejo abaixo, até ao Algarve, pois que “se essas terras podiam tão bem alimentar os moiros, iriam igualmente sustentar-nos a nós”.  …Mas foi engano.  Os moiros eram capazes de fazer agricultura até no próprio deserto.  ….Nós não!  …Para nós não deu!  …E assim, mal entrámos no século XV, logo corremos a conquistar Ceuta, para chegar ao trigo do reino de Fez e depois ao Oiro da Mina.                   …E éramos só um milhão naquele tempo!  …Desde aí, e até à Revolução de Abril, nunca mais deixámos de viver à custa das colónias.  Todo o resto é pura fantasia.  E os nossos “economistas”, pelo menos os sérios e conscientes,  sabem disso muito bem.  Sabem também que Portugal e a Espanha são economicamente complementares, …e que só por uma aberração da História passámos a viver divorciados. 

É verdade que, pelo Correr dos Tempos, sempre conveio a outras Potências separarem-nos do resto da Espanha, …para nos enfraquecerem,  …a uns e a outros.  …E foi exactamente por terem conseguido separar-nos que, nós e os outros ibéricos, acabámos por perder tudo.  …Ainda há 27 an0s atrás, quando nos expulsaram das ultimas colónias, (E nunca se diga que foram os africanos), se estivéssemos  ligados aos outros Estados Ibéricos, não teríamos tido força para lá permanecer?

Claro que as colónias chegariam um dia à sua independência, desenlace inevitável de qualquer sistema colonial.                               …Mas porque é que os portugueses tiveram que sair de lá?    Se lá tivéssemos permanecido nada se teria desorganizado, ou sido espoliado.   Poderiam ter sido mantidos “laços preferenciais de comércio” com Portugal, continuando a ajudá-lo, e poderia ter-se evitado a ruína de centenas de milhar de portugueses, assim como o monstruoso sacrificio de milhões de africanos…

Por outro lado esta separação do resto da Espanha sempre foi conveniente para uns tantos dos nossos “politicos”, que assim sempre conseguiram guindar-se  a posições que naturalmente não alcançariam de outro modo.                                

Aponta-se também como dificuldade para uma União Ibérica, sermos nós uma República e o resto da Espanha uma Monarquia. …Mas então sou forçado a lembrar-me que o meu Pai dizia sempre que a república foi proclamada contra a vontade de 80% dos portugueses.  A verdade é que temos Oito (8) séculos e meio de  Monarquia e só Um século de República.  Com a Monarquia expandimo-nos.  …Com a República encolhemos.                             Do Império onde o Sol (quase)  nunca se punha, voltámos aos 84.000 quilómetros quadrados da nossa isignificância original.

Mas porque foi que o 25 de Abril ofereceu a este Povo a escolha da sua forma de Governo e não lhe deu também a escolher a sua fórma de Estado?

J. Sá-Carneiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A OPÇÃO IBÉRICA - I -

 

( IBÉRIA   …OU HISPÂNIA ?        -        Memória - 2001 )

Quando um português desavisado se mete a fazer comparações, em directo, entre Portugal e a Espanha, acaba fatalmente por cair nas mais incorrectas ilações, ...chegando mesmo a atingir aspectos de completo ridículo.

Nós não somos piores ou melhores que os outros povos peninsulares. ...Simplesmente estamos sozinhos! ...Enquanto que os outros tiveram a sensatez (E o mérito) de se unir!

...Portugal deve sim ser comparado com as outras Nações Ibéricas, de dimensão e importância mais ou menos próximas das suas, (Castela, Catalunha, Andaluzia, etc) ...e nunca com a União!

...É notório que se alguém, em qualquer momento, se atreve a dizer que “Portugal é, geografica e demograficamente, uma Nação (Ou um Estado) da Espanha”, …ou que o Português é uma das principais línguas dessa mesma Espanha (Ou da Hispânia)”, logo ali é excomungado! ...E com certeza contestado, mais ou menos neste tom: “Não Senhor! Isto aqui não é Espanha, nem Hispânia, nenhuma! ...Isto aqui é Ibéria!”

...Bom, Ibéria, Hispânia e Espanha são todas a mesma coisa. Ibéria veio do grego, Hispânia é o nome latino, e muito mais moderno. ...Espanha será a alteração para o romanço. ...Mas talvez seja até melhor escolhermos Hispânia (Ou Espanha), porque a Ibéria era mais para a região leste da península, chamada agora Catalunha, embora mais tarde se passasse a chamar Ibéria à Península toda. E o nome provém de Ibero (Rio Ebro), que corre lá daquele lado.

Outra coisa que costuma dizer-se é que Portugal nasceu da Lusitânia.   ...Mas parece que pouco temos a ver com esse povo .    ( Ou povos - Eram onze tribos independentes entre si.)   ...A capital da Lusitânia era Mérida. ...E os lusitanos tinham sido também um povo germânico (Ou indo-europeu ) invasor, como os celtas, mas ainda mais antigo.  …E só chegaram aos Montes-Herminios a fugir do general romano Galba.

Também nunca houve confirmação de serem os Hermínios  a  nossa Serra da Estrela, onde jamais foram encontradas ruínas de castros, e os poucos vestígios existentes parece serem de construções "Tapori".

...A verdade é que Portugal nasceu da Galiza,   …e mais de mil anos depois da pacificação dos Lusitanos, dos quais já ninguém guardava memória.        A Galiza  era  ao tempo a mais evoluída e culta das nações da Espanha  (Depois da Andaluzia, claro, porque essa, sendo de cultura árabe, estava alguns séculos mais avançada). ...O Condado (Portucalense) era o pedaço sul da Galiza, nas margens e foz do rio Douro. ...E Portugal, desde que reconhecido pelo Papado, em 1179, esteja certa ou errada essa opção, nunca deixou de ser independente.

( ...Independência que se manteve até mesmo sob os reinados dos Philipes.  Pois que o II de España se chamou I de Portugal, e assim até ao fim da Dinastia ).

...Mas essa Independência, que todos nós queremos conservar, nada tem a ver com a  “Confederação Ibérica”!   ...Que não nos traria qualquer perda de Nacionalidade ou de Patriotismo, pois que continuaríamos a ser a Nação Portuguesa ...e "Patriotas dos Quatro Costados", ...só que com certeza mais fortes e menos pobres.

...Infelizmente essa União Ibérica continua a não estar sequer à vista!

...Entretanto, se Portugal fizesse parte dos "Estados da Espanha" (ou Hispânia), ...seria o Maior e o Mais Populoso.  Também o que teria os Maiores e Melhores Portos de Mar (Para além de serem naturais) - Com Sines como Porto de Baldeação da Europa –.  Os Melhores Percursos dos Rios (Que poderiam tornar-se realmente Navegáveis), as Melhores Praias (Que passariam a ter verdadeiro “aproveitamento Turístico”, para além da sua "beleza natural"). …O mais fácil Acesso Marítimo ao Resto do Mundo ! ...etc.  etc.  etc.

...Portugal poderia até tornar-se no Mais Importante dos Estados da Espanha!

...Assim, como estamos, ...somos   ...A Outra Andorra da Espanha!   ( Mas mais pobres! )

...Pelo seu lado a Espanha, com Portugal, seria o maior País da União Europeia, com importância semelhante à da França, Reino Unido ou Itália, e população muito aproximada à desses Países.

...Quase todos os Estados Europeus depressa descobriram que só as Uniões lhes dariam Força e Prestigio internacionais:  É a velha divisa  "A União faz a Força".

Assim a primeira terá sido a França, quando os Francos se juntaram aos Gauleses e Povos do Midi. ...Na Grã Bretanha uniram-se os Normandos aos Anglos, Saxões, Bretões e Scots.   ...A Itália, enfraquecida e toda retalhada,  …pelo impulso dos "unificadores", Garibaldi, Cavour, Manzoni, Verdi, transformou-se no portento que hoje é. ...E a Alemanha que, sob o pulso de Bismarck, resultou da ligação da Prússia aos Estados do Oeste e do Sul, e se tornou no País que agora conhecemos!?

...Os próprios Estados Unidos da América do Norte são o que o seu nome diz: UNIDOS.      (...Para o conseguirem sofreram a terrível Guerra da Secessão, ...mas Valeu a Pena! E são hoje em dia a Super-Potência do Mundo porque tiveram a inteligência e a coragem de se UNIR.)

...Porque é que fomos capazes de manter Unidos todos os Estados do Brasil e aqui, pelos séculos fóra, vamos insistindo neste divórcio de "nuestros ermanos", que tanto nos sacrifica?

...Enquanto que eles, ali ao lado, veja-se o Prestigio de que  agora desfrutam!

E, se nos uníssemos, para não ferir susceptibilidades , até poderíamos chamar ao todo Confederação Ibérica. …Ou simplesmente  IBÉRIA.    …E Portugal cá continuava!

Por vezes objecta-se que a Espanha é uma Monarquia, …e Portugal uma República.

…Mas, segundo o Professor A. M. Hespanha, na sua História do Portugal Moderno - Politica e Institucional, citando António de Sousa Macedo, diz-nos que as Monarquias podem, naturalmente, conter repúblicas, nelas integradas como uma parte pública das nações. …De resto estamos convencidos de que o Português, por  índole  e discernimento, continua a ser monárquico.                          …Pois que vincadamente o era a quando da implantação da república. …E só por um despropositado erro essa implantação aconteceu.   …No Porto espalhou-se que a revolução tinha ganho em Lisboa, …e em Lisboa parece terem conseguido o contrário.    No resto do País proclamou-se a república   …pelo telégrafo.  

…A convicção dos republicanos era tão pouca, que o Chefe da Revolução, Almirante Reis, suicidou-se na madrugada de 5 de Outubro,  convencido de que a República estava derrotada..

Portugal em oito séculos de Monarquia CRESCEU, quase até ao infinito.

Com um único século de República DIMINUIU, até quase desaparecer.

De resto, não é a Espanha uma Democracia ?

E não é Democracia um sinónimo de República ?

Porque é que o 25 de Abril concedeu aos portugueses a escolha da sua forma de Governo, …e não lhes facultou também a escolha da sua forma de Estado ?                                                                                   

Bastaria uma pequeníssima alteração à Constituição:  Em vez de “Eleição para Presidente da República”,  passaria a dizer-se “Eleição para Chefe do Estado”.  …E assim, além dos candidatos republicanos,  poderiam  também concorrer candidatos monárquicos;   Bragança,  Bourbon,  ou outros.                                 

E estaria reposta a  moralidade. 

Entretanto continuamos com o maior receio de que a “maioria nacional” goste disto é tal como está:   Pequeninos, pobrezinhos, atrasadinhos,  mas     …orgulhosamente SOS.

 

Nov. 2001

J. Sá-Carneiro (*)

 

(*) José António de Sá Carneiro

Despachante da Alfândega de Luanda de 1952 a 1975

Despachante  Ofic. da Alf. de Lisboa desde 1980

Diplomado em Marketing Management pelo SAMA de Joanesburgo

Licenciado em História pela Universidade Aberta de Lisboa

Nasceu em Lisboa em 1927

terça-feira, 15 de junho de 2010

ADEUS EUROPA. …BEM-VINDA IBÉRIA !

 

É  COM A  MAIOR  CONSTERNAÇÃO  QUE   NOS  SENTIMOS  OBRIGADOS   A  RECONHECER  QUE,  APÓS  DOIS MIL ANOS DE HISTÓRIA,  MAIS UMA VEZ,  A  TÃO  ALMEJADA  CONSTRUÇÃO  DA  EUROPA…              

…JÁ VOLTOU,  PROVAVELMENTE,   A  FALHAR !

          …RESTA-NOS  O  REGRESSO  À  “IBÉRIA” !

Desde já, encarecidamente, vos pedimos que não nos tornem a falar em “soluções miraculosas” para um Portugal isolado, sem  um mínimo de recursos naturais, com uma população que não consegue de modo algum sair do seu “circulo de fatalidade”, o qual não lhe consente  instruir-se porque é demasiado  pobre.         …E  que, por outro lado,  continua a ser cada vez mais pobre porque não tem  instrução.    

… A verdade é que, mesmo com gente  de melhor qualidade, e com  mais imaginação para  tirar  algum proveito das miseráveis condições que nos rodeiam, Portugal, sem  colónias, e isolado  do resto da Espanha,  nunca poderá ser viável.                                 

Por favor:   Não brinquem mais connosco !

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Vão uns dez anos, iniciámos uma série de pequenos artigos, sem “valia politica” de maior,  nem qualidade literária, em que  se tentava demonstrar que Portugal, uma vez que, após a revolução de 1383 e  a batalha de Aljubarrota,  havia cortado laços com Castela e todo o resto da Espanha,  …só tinha conseguido sobreviver, atravessando os mares,  e instalando-se em posições “do outro  lado”.         …Mas que agora    …já não havia    …“o outro lado”.

Esses artigos destinavam-se a ser publicados no jornal “O Dia”,   onde  escreviamos  às vezes,  e que  entretanto foi extinto,  pelo que nunca vieram à  luz.   Porém, os raros  amigos que os leram, por pouco não nos matavam.   …E fomos forçados a concluir que, no fundo,  gostavam era disto tal como estava:     Um Portugal      Pequenino, bonitinho,  pobrezinho, mas  “separadinho”.                 

Depois começámos a acreditar que a União Europeia  iria resolver todos os nossos problemas,     …e não se pensou mais nos tais artigos.

                                       _____________

…Longe de nós alvitrar “quem terá feito falhar a Europa”!…

Mas, passado este intervalo de dez anos, em  que a maioria das pessoas  já se apercebeu da realidade que nos cerca  e,  perante o falhanço, já quase definitivo, de todos os nossos geniais “Planos Europeus”,  parece que só nos resta  em consciência,   procurar  esses textos dispersos, talvez perdidos e,  agora com a facilidade da Internet,  passar mesmo e decididamente,   a  publicá-los.

O  Primeiro desses artigos escrevêmo-lo a 19 de Março de 2001, e é, com ligeiras alterações, este  que se anexa.                                       

Chamou-se “Ibéria  …ou  Hispânia?  –  Um  Ensaio  Iberista”.   

Passa agora a chamar-se:  “A Opção Ibérica”.                                  

Facultámos cópias dele  (Bem como, mais tarde,  dos outros 5 ou 6 que o  seguiram)  a dois amigos, que os terão estudado e adaptado nessa altura.     Foi já publicado,  há uns meses,  neste mesmo Blogue.

Para servir de inicio à pequena série, tornamos agora a emiti-lo, com ligeiras alterações,  sob o título de  “A  Opção  Ibérica  -  I  -“ 

Claro que tais artigos, este e os outros, não valem grande coisa,    …mas é o nosso contributo.        …E talvez ajudem!                

Afinal por algum lado teremos que SAIR! 

J. Sá-Carneiro

quarta-feira, 9 de junho de 2010

ANGOLA CRIOULA

                                                                                             ( MEMÓRIA)

ANGOLA CRIOULA - I

- Terá sido em 77 ou 78. Meia dúzia de refugiados portugueses, de Angola e Moçambique, à conversa num café de Joanesburgo. O José Ramalho, ex-redactor, creio que do “Noticias” de Lourenço Marques, e que estava na altura a trabalhar numa revista sul-africana chamada “To the Point”, preguntava-me porque é que o Savimbi chamava à Jamba “Capital da República Negra de Angola”. Claro que eu não sabia, ...mas fui alvitrando que talvez fosse por Angola não ser ainda...“Negra”, ...embora independente. ...Perguntou-me o que seria então Angola. Respondi-lhe que, a meu ver, Angola estava a caminho de voltar a ser crioula. “Crioula” como na verdade já tinha sido, no tempo colonial, e talvez como definitivamente acabasse por voltar a ser.

- ...Mas afinal o que era isso de “crioula”?

- Tenho um velho dicionário, intitulado “Thesouro da Lingua Portugueza”, da autoria do Dr.Frei Domingos Vieira, editado no Rio de Janeiro em 1873, que diz que “crioulo é o homem ou mulher brancos, originários das colónias”. Também diz que “negro crioulo é o nascido na colónia, em opposição ao proveniente do tráfico”.

O Larousse diz que “crioulo” ( creole ) é “Pessoa de raça branca nascida nas colónias”.

A Enciclopédia Britânica define “creole” como o termo que e usava, do Sec. XVI ao Sec. XVIII, para indicar pessoas brancas, nascidas na América Espanhola, filhas de pais espanhois.

O dicionário norte-americano Funk & Wagnalls diz que crioulo é um descendente de colonizador francês ou espanhol, da Luisiana ou dos Estados do Golfo e que mantém os seus especiais dialecto e “cultura”. Diz ainda que “Creole State” é o nick-name da Luisiana.

Sabemos que pelo correr do Sec.XIX se passou a chamar tambem crioulo ao africano negro que falava e escrevia o português ( Ou francês ou castelhano ) e, naturalmente, aos mestiços resultantes das duas raças. Passava assim o termo “crioulo” a definir e caracterizar uma determinada “cultura”, em vez de qualquer conceito de “raça”.

- Mas em 1942 quando, com 15 anos, cheguei a Luanda, teve esse vocábulo para mim muito mais impacto e significado que todas estas definições meio abstractas. “Crioula” era a população angolana ( branca, mestiça ou preta ) de expressão portuguesa, que constituia a maior parte da comunidade civilizada das cidades e vilas da colónia.(Brancos nascidos lá, muitas vezes de várias gerações, mas tambem outros que para lá idos em crianças, tinham adquirido o sotaque e os modos e mentalidade dessa extremamente gentil comunidade)...E ser crioulo era um modo de estar na vida. Era fazer parte duma “Cultura” muito especial, detentora duma sensibilidade e dum encanto, que só podia ter florescido dentro da Cintura dos Trópicos. Os crioulos de Angola seriam ao tempo um milhão. Na sua maioria de raça negra, cláro. A restante população da colónia estava ainda, a vários estágios, no caminho desse processo de assimilação. ...Mas eram crioulas muitas das familias, a que felizmente tive acesso       ( brancas, mestiças ou pretas ) mais consideradas de Luanda           ...Nunca vi ninguém receber melhor em sua casa!      ...E, quando se abeirava o fim do ano, disputavam-se os seus convites para as festas de Réveillon. ...Meu Pai, chegado um ano antes, explicava-me todo aquele esquema social. Dizia-me que Cabo Verde não era a única colónia portuguesa crioula. Que também Angola o era, embora aí se falasse um português muito mais próximo do europeu do que o dialecto caboverdiano.

Dizia-me ainda que essa população crioula, se um dia Angola viesse a ser um País independente, seria a sua grande vantagem face a qualquer outro estado africano. ..Levou-me ao que chamou a Capital Crioula de Angola - Benguela - , onde havia muitos senhores brancos casados com senhoras pretas, mas o contrario tambem ali com frequência acontecia.

- Voltei a Benguela pelo final de 1991 e passei o Réveillon no Sporting.

...O cenário social era exactamente o mesmo que eu conhecera cincoenta anos antes.

 

ANGOLA CRIOULA - II

É evidente que havia outras comunidades civilizadas em Angola naquele tempo. A dos funcionários públicos em comissão de serviço, por exemplo: o caso de meu Pai. Mas a aproximação era extremamente fácil, e assim me foi possível beneficiar das duas culturas, o que ainda hoje considero das melhores benesses que a vida me deu.

...Mas essa maravilhosa Cultura Afro-Portuguesa, que tinha feito o Brasil e que tão característica e vigorosamente se fazia sentir quando conheci Angola, estava condenada, sob as vagas sucessivas de neo-colonos dos anos 50 e a ocupação militar dos 60 e 70, a quase se extinguir. Pouco a pouco foi-se diluindo. Os seus mais caracteristicos representantes foram desaparecendo, e esse tão simpático “modus vivendi tropical” foi-se quase por com-pleto submergindo. ...Como lingua, não chegara sequer a ser um dialecto, ...mas era um português dum muito peculiar sotaque, doce e cantante. ...Era “música”! ...E já quase que não se ouvia falá-lo. ...Como Cultura? ...Não me será fácil expressar essa cultura crioula, muito mais de sentir do que de compreender, ...que, para alem da nossa de portugueses, nos dava acesso a outras regiões do entendimento, ...que nos transportava a uma espécie de “euforia lúcida”, ...que nos levava a um melhor relacionamento com tudo e com todos e a achar que, à nossa volta , todas as coisas e todas as situações eram fáceis e perfeitamente naturais.

...Raças? ...Acho que ninguém falava de raças naquele tempo. ...Ou se falava era sem acinte nem maldade. Toda a gente se ajudava. ...Se o branco era “paternal”, ...juro-vos que isso não iria de modo algum ofender o preto, antes pelo contrário.  ...Ninguém era estúpido!

E a posição inversa também se verificava: Eu, por exemplo, posso dizer que fui tratado com natural paternalismo por um Senhor preto, funcionário das alfandegas, naquele tempo patrão das lanchas, que se deslocavam aos navios nos dias de “S.Vapor”, e que se chamava Antonio Pitra. Foi ele que me ensinou a pilotar barcos e guiar automóveis, bem como muitas e muitas outras coisas, que sempre me serviram durante os perto de 40 anos que vivi em África.

Quando em 1991 voltei a Luanda, o Pitra convidou-me para almoçar em sua casa, no Bairro do Cruzeiro. Era uma daquelas casas grandes, com varanda colonial, que eu tinha conhecido, no tempo da colónia, como residências dos altos funcionários.

Em redor da enorme mesa estavam 7 ou 8 dos seus filhos e filhas, quase todos formados, em medicina, em direito, etc.  Ele à cabeceira e à sua frente a Dona da casa, que eu também conhecia desde garoto. Fiquei ao lado do Pitra e durante todo o almoço (muamba) ele não me largou o pulso, obrigando-me quase que a comer só com uma mão, ...e era bem visível a sua comoção enquanto conversávamos. ...Infelizmente estava com oitenta e muitos, e morreu no ano seguinte.

Se aceitamos que uma “cultura” é na verdade como que um “permis de conduire” dentro duma “comunidade”, por dela termos alcançado suficiente conhecimento, então a Cultura Crioula de Angola era o Permis que tanto servia para nos guiarmos ( Pretos, Mestiços ou Brancos ) pelos “Arruamentos de Civilização”, que para ali tinham sido transplantados , como pelas “Bárbaras Sendas do Mato”, que tanta felicidade e tão generosa liberdade transmitiam, e das quais sentimos hoje a mais dolorosa saudade.

...E essa “cultura” perdurou! E há assim que reconhecer que a enorme supremacia ( moral e intelectual ) de Angola sobre a maioria dos outros novos países africanos, provem exactamente dessa sua formação cultural Afro-Lusa, ...tão forte, ...tão intima, e tão única em todo aquele Continente.

...E eram estes “angolanos de cultura crioula”, na variedade exuberante das duas raças e suas combinações,  inesperadamente ressurgidos, de todos os lados, no momento fulcral da independência - que eu dizia ao jornalista José Ramalho terem sido os verdadeiros herdeiros dos portugueses. ...Dessa herança que se chama Angola!

...Claro que Angola Crioula é muito mais que tudo isto. ...Só tentei dar uma ideia!.

 

ANGOLA CRIOULA - III

Sabemos contudo quão difícil tem sido a consolidação desta ”civilização crioula” em Angola.

...Dificuldade que irá persistir até ao momento em que o País inteiro possa sentir que é afinal crioulo também. ...E que seja capaz de enfrentar, e vencer, as poderosas correntes internacionais que gostariam de ver instalar-se em tão rico e portentoso território outras “culturas” mais fáceis de “manipular” ...e “espoliar”!

( Também muitas vezes nos queixamos de que os crioulos não trataram com a esperada fraternidade muitos portugueses, ...”que lá podiam ter ficado”! ...Mas não nos esqueça-mos de que naquele momento não eram eles que tinham “a palavra”....E de que, de certo modo e em várias fases, também a eles Portugal abandonou. ...Não esqueçamos que muitos e muitos foram, tal como nós, obrigados a exilar-se.    ...Que outros terão sido tragicamente imolados pela tremenda confusão que se seguiu à independência...E muitos continuam ainda a sacrificar-se, todos os dias, tantas vezes até à morte, ...afinal para que Angola continue a ter essa Cultura Crioula-Portuguesa, ...que sempre sentiram ser a sua. )

Fala-se, com declarado entusiasmo, dos PALOP’s. ...E com certeza que tentar promover uma união de povos pela sua afinidade fonológica será sempre iniciativa de louvar, bem como todo o movimento que daí se gerou.    ...Mas língua, só por si, pouco significaria sem a forte envolvente, e o apoio, duma “cultura”, da qual ela seja a forma natural de expressão. ...Acabaria fatalmente degenerando numa espécie de oco brouhaha,   ...como tantas vezes acontece.

...Em Moçambique, por exemplo, também ficou a língua, mas não ficou a “cultura”. ...E isso porque na realidade nunca lá existiu aquilo a que podemos chamar uma comunidade crioula. E até que uma língua, desprovida da sua correspondente entourage cultural, está condenada a rapidamente desaparecer.

...Todos sabemos perfeitamente que aquilo que poderíamos classificar como “real e genuína cultura portuguesa”, a nossa cultura europeia, ...essa não ficou em parte nenhuma! ...Não em Macau, ...nem na Índia, ...nem no próprio Brasil ( Afinal também basicamente formado por estados crioulos, equivalentes à Luisiana ).

O que, por toda a parte, deixámos foram culturas mistas, de base portuguesa, é verdade, mas muito mais adaptadas aos diferentes cantos do Mundo por onde as soubemos espalhar, e onde, nalguns casos, irão perdurar ainda por séculos.

(...Talvez que Cabo-Verde, apesar de todas as carências, possa ser considerado, em seus aspectos social e cultural, como um perfeito exemplo do sucesso “luso-crioulo” em África )

...Penso que, tanto como a Lingua, é essa Cultura que sempre ligará Angola a Portugal.

Não estou à altura de aqui referir aspectos artisticos ( Pintura, escultura, música, etc.) ou literarios, por exemplo, em que sabemos ser a cultura angolana original, exótica e profusa.

...A abordagem de componentes religiosas desta cultura, que se coloca para alem das minhas capacidades, essa deixo-a para quem quiser prosseguir com tão aliciante proposta.

...Resta-me agora tomar a liberdade de lançar, daqui, das colunas desta Revista, o meu repto e convite àqueles que sabem e podem explicar esta “Angola Crioula” muito melhor do que eu, para que o façam! ...Porque me parece extremamente importante fazê-lo! Creio que, de certo modo, isso viria ajudar um pouco a corrigir certos conceitos e a reequacionar determinados problemas, ...sempre com vista ao difícil objectivo de aclarar no possível as desastrosas dúvidas em que aquele sacrificado País continua a debater-se.

E esse vosso contributo, que visaria, como primeira etapa, reconhecer e definir uma “Cultura Angolana”, poderia afinal vir a ter relevante importância para o futuro de Angola e o reforço dos seus laços com Portugal, e para o arranque definitivo dum verdadeiro Projecto Conjunto, que só poderia trazer vantagens e felicidade aos nossos dois Países.

José António de Sá Carneiro                          Out. 2000

terça-feira, 25 de maio de 2010

O DESEMPREGO V

ESTE “DESEMPREGO  V”,  NEM  FOI  PRECISO  ESCREVÊ-LO .   FOI-ME ENVIADO PELO MEU PRIMO J.  MANUEL  GUEDES VAZ DE ALMEIDA, ESTÁ MILAGROSAMENTE NA   SEQUÊNCIA DOS MEUS TEXTOS  ANTERIORES,   É LÚCIDO E OBJECTIVO, E  PARECE TER VINDO PARA FECHAR  O TERRIVEL  CICLO           …ATÉ  AO  PRÓXIMO  S O S, QUE NÃO SE FARÁ ESPERAR!

A VERDADE É QUE TUDO O QUE COMPRAMOS É “MADE IN CHINA”.
Eis um aviso para o futuro! Quem liga a esse aviso?
Ninguém!
Agora é só aproveitar!
E depois para os nossos filhos?

COMO FICARÁ A CHINA DO FUTURO?

-Que me perdoe o jornalista e meu colega de Marketing, Luciano Pires, estar a trancrevê-lo, mas este Blog < waterproof pilot. blogspot.com >   é praticamente secreto, e não irei prejudicá-lo.   De resto este seu texto é-me indispensável!

LUCIANO PIRES
Luciano Pires é director de marketing da DANA e profissional de comunicação.


Alguns conhecidos voltaram da China impressionados.
Um determinado produto que o Brasil fabrica em um milhão de unidades,
uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões.
A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reacção é impressionante.
Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas.
Com preços que são uma fracção dos praticados aqui.
Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: 100 dólares/mês.
 
Um operário brasileiro equivalente ganha 300 dólares no mínimo que acrescidos
de impostos e benefícios representam quase 600 dólares.

Quando comparados com os 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente
zero benefícios estamos perante uma escravatura amarela e alimentando-a.
Horas extraordinárias? Na China? Esqueça!!!
O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego que trabalha horas extras sabendo que nada vai receber por isso.


Essa é a grande armadilha chinesa.
 
Não se trata de uma estratégia comercial, mas sim de uma estratégia de poder.

Os chineses estão tirando proveito da atitude dos marqueteiros ocidentais, que preferem terceirizar a produção, ficando apenas com o que ela "agrega de valor": A MARCA.
Dificilmente você adquire nas grandes redes comerciais dos EUA um produto "Made in USA".


É tudo "Made in China", com rótulo americano.

As Empresas ganham rios de dinheiro comprando dos chineses por….centavos….e vendendo por centenas de dólares.

Apenas lhes interessa o lucro imediato e a qualquer preço.

Mesmo ao custo do fechamento das suas fábricas. É o que se chama de "estratégia preçonhenta".
Enquanto os ocidentais terceirizam as táticas e ganham no curto prazo,                             a China assimila essas táticas para dominar no longo prazo.



Enquanto as grandes potências mercadológicas que ficam com as marcas, com os designes,os chineses estão ficando com a produção, assistindo e contribuindo para o desmantelamento dos já poucos parques industriais ocidentais.


Em breve, por exemplo, já não haverá mais fábricas de tênis ou de calçado pelo mundo ocidental.
Só as haverá na China.
 
Então, num futuro próximo veremos os produtos chineses aumentando os seus preços,  produzindo um "choque da manufatura",como aconteceu com o choque petrolífero  nos anos setenta.                                      
Então já será tarde de mais.
E o mundo perceberá que reerguer as suas fábricas terá um custo proibitivo
e irá render-se.

Perceberá que alimentou um enorme dragão e que dele ficou refém.

Dragão que aumentará ainda mais os preços, já que será ele quem ditará as
novas leis de mercado pois quem manda é ele.
É ele e apenas ele quem possui as fábricas, inventários e empregos.

É ele quem vai regular os mercados e não os "preçonhentos".

Iremos, nós e os nossos filhos, assistir a uma inversão das regras do jogo,
que terão impacto de uma bomba atômica... chinesa.


Nessa altura é que o mundo ocidental irá acordar mas já será tarde.


Nesse dia, os executivos "preçonhentos" olharão tristemente para os esqueletos
das suas antigas fábricas, para os técnicos aposentados jogando bocha na esquina, 
para as sucatas dos seus parques fabris desmontados, etc.
 
E então lembrarão, com muitas saudades, o tempo em que ganharam dinheiro
comprando baratinho dos "escravos" chineses, vendendo caro aos seus conterrâneos.
E então, entristecidos, abrirão suas "marmitas" e almoçarão as suas marcas que já deixaram de ser moda e, por isso, poderosas.

PEDE-SE A TODOS QUE REFLITAM E COMEÇEM A COMPRAR JÁ PRODUTOS DE FABRICO
DOS VOSSOS PAÍSES.

…MADE IN CHINA   -   QUE  FUTURO ?

sábado, 17 de abril de 2010

OS ANOS LOUCOS DE LUANDA - II

“OS  DRAGÕES”                                            ( CONTINUAÇÃO )       

…E a Coluna estacou para uma rápida reunião:  Comandantes, sargentos e cabos, cinco ou seis condutores civis.   …E,  logo em seguida, e da forma mais abrupta, o comandante desata aos berros,   manda  pôr  toda  a gente,  camionistas incluídos,  em respeitoso sentido, ao longo da berma da picada, e começa a  pregar-lhes uma das mais furiosas  descomposturas  que  eu  até  ali tinha ouvido.   ( Claro que nunca  percebi  porquê).                   Ao mesmo tempo,  e a passos largos,  ia percorrendo a fileira, duma ponta até à outra, sempre zurzindo a poeira do chão, a chicotadas do cavalo marinho, de que nunca se separava.

A seguir subiu para o Unimog e,  também em rigoroso sentido,  berrou  a  pergunta:    “Quem é o alferes mais charmoso do Exército Português ?                              E os os soldados responderam em coro:      “É o  menino  João Moreira”.                                                                         E eu, que tinha ficado sentado no banco do Unimog, devia  com certeza estar a olhar para tudo aquilo, com o ar mais  espantado do mundo.                                                          Por fim gritou a ordem:   “Siga a coluna !”

Meia hora depois, num lugar a que chamavam a Baixa da Bananeira, estávamos todos enterrados.                             …E, logo a seguir, a noite caiu.

Ainda houve uma ou duas tentativas de rebocar camions com os Unimogs, mas era preciso abrir passagens ao lado da picada, e a noite estava breu.       Assim resolveram deixar para de manhã.

Foram estabelecidos postos de sentinela,  em  três  ou quatro pontos, …mas eu, que estava a dormir dentro dum camion,  acordei a meio da noite e fui, por curiosidade, dar uma volta ao acampamento:                                               Não havia vivalma acordada!                                                 E como,  durante toda a noite,  nada de nada aconteceu, veio reforçar-se a minha convicção de que,  na verdade,  a guerra de Angola já tinha acabado.                                       …Ou, pelo menos, que alguém a tinha mandado “parar”.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

OS ANOS LOUCOS DE LUANDA II

OS  DRAGÕES

J. Sá-Carneiro                                                   Cascais, 19. 03. 2009

                                                                                          (Memória)

Desta vez é só para contar como fui parar ao Zala, “incorporado”  na escolta  militar,   mensalmente  prestada pelos Dragões,  às colunas de abastecimento à  Belavista e a  S.ta Eulália.

A Belavista era o maior aquartelamento do Norte, que servia as províncias do Uige e do Zaire (Congo Português) junto à fronteira da República do Zaire (Antigo Congo Belga).  S.ta Eulália era a Base Aérea do Norte de Angola.   O Zala era um posto de combate, no meio do mato, “terra de ninguém”, pois que, servindo de escala,  normalmente era abandonado após a passagem da coluna, e assim ficava até à próxima.

...Mas francamente não sei muito bem por onde começar.    …Vamos a ver:

Quando tinha que despachar aviões,  em geral charters da África do Sul,  na alfândega do Aeroporto, tarde da noite, ou às vezes já de madrugada, era sempre eu próprio que me encarregava desse serviço, nunca o entregando aos ajudantes.  E naturalmente que haveria nisso uma certa intenção,   ...mas sem pecado de maior. Até confesso:   É que então acontecia que, antes ou depois do avião, eu acabava, quase que fatalmente, por dar um salto aos cabarés,  quanto mais não fosse  para espreitar as “novidades”.       E foi isso mesmo que aconteceu naquela noite.

Mas antes de entrar em pormenores dêem-me só uns minutos para tentar explicar o que eram os Dragões de Angola. (Tropa de cavalaria, motorizada:  Uma companhia no Sul, e um esquadrão em Luanda): Quando estoirou o terrorismo, em Fevereiro de 1961, com o ataque à ‘brigada móvel´da estrada de Catéte  e, um mês depois, a mortandade no norte de Angola de mais de 2.000 europeus e 5 ou 6.000 africanos, que ficaram ao seu lado, os Dragões constituíam praticamente a única unidade militar europeia que existia na Capital ...e eram só 85, ...incluindo o seu comandante, o capitão de cavalaria José Maria Mendonça Júnior.       O resto da unidade era formado por cerca de 200 africanos, que o capitão Mendonça sempre teimou em não levar a combate.  Conheci (E ainda conheço) muito bem o Zé Maria e, numa outra ocasião, se ele concordar, tentarei contar algumas das suas histórias.       Conheci também, com certa aproximação, alguns seus dragões, dentro os quais ainda destaco o Jean-Jean Penaguião.                     …Mas eram todos bons. ...E foram eles que, na verdade, nos salvaram, pois durante uns bons três meses não chegou qualquer socorro a Luanda, com excepção duma companhia de páraquedistas, que logo foi expedida para o mato.

Mais militares europeus: Cerca de três dúzias de policias, que ao todo dispunham de 12 pistolas, estando uma delas definitivamente encravada, e que eram rendidas, quando rendidos eram os guardas de giro. Dez ou doze para toda a cidade. Podia-se ainda contar uma vintena de guarda-fiscais, também mais ou menos armados, de Parabelum’s da 1ª Guerra os do porto de mar, e de duas FBP´s de 9mm, os do aeroporto.

Luanda teria naquele tempo cerca de 50.000 europeus. Mas armas só de caça, e poucas. E os Muceques, com perto de um milhão de africanos, ferviam ali à nossa volta.

...Outra vez na História, arremedando o Churchil, nunca tanto se deveu a tão poucos.

Mas o relato que agora vos transmito diz respeito a factos ocorridos meia dúzia de anos mais tarde e o Capitão Mendonça já nem sequer estava em Angola, pois penso que teria sido promovido e transferido para Timor, como ajudante do Governador Geral.

Também não me recordo de quem era o comandante dos Dragões naquela altura.

Porém voltando aos cabarés;   ...Figuras crónicas da noite:   O Salvador, despachante-oficial meu colega, o Sousa Batoteiro, com os dedos carregados de aneis, o Gentil do dente de oiro, ...esses nunca falhavam. ...Mas também o Cristiano Lane e o Luiz Gama, o Teófilo Esquível e o Tito Larcher, enquanto lá estiveram ...e uns tantos outros.

...E depois havia os oficiais e sargentos milicianos, “da guerra”. Isto passa-se em 1967 ou 68. E eu, como saia bastante à noite, conhecia-os a todos.

A guerra durou 14 anos, e foram muitas as incorporações, algumas de Angola, mas a maioria metropolitanas, claro, de generosos rapazes que, sempre cheios de entusiasmo e alegria, se sacrificaram, muitos deles até à morte, para defender uma terra, que na verdade nos sustentava a todos, ...lá e cá, ...e que depois “os outros” deitaram fóra.

( Não estou a falar da independência.   ...A independência tinha que ser!    Estou a falar do abandono,   ...que evidentemente não tinha que ser.    Nem podia ser!   …E que foi! …Por engano …e total inépcia.      …Para não se dizer pior!)

Luanda daquele tempo era a cidade africana com mais vida nocturna, a sul do Equador. Havia uma profusão de boites e bares por todo o lado.   E não faltavam cabarés.   Quando entrei no “Embaixador”  dei logo de caras com o João Moreira, alferes dragão, de Moçamedes, e o Nuno Alegre “Rato”, miliciano da Metrópole, do Porto. Chamaram-me para a mesa deles, apresentaram  as  pequenas,  e  foi assim que começou.

A noite foi igual às outras:  Copos, saúdes, graças   ...alegria.           …O espectáculo até nem era mau.    … Havia um número com uma baiana engraçadíssima, ...e gordíssima, intima de todos nós, e depois o maitre anunciava “Senhoras e Senhores agora apresentam-se as irmãs “Sisters”, da África do Sul”. ...E depois dançava-se, ...e depois mais copos ...e fichas.

Quando saimos de lá, às quatro da manhã, é que eles me disseram que:   “Agora vamos a casa fardarmo-nos num instante, para nos juntarmos à coluna para o Zala, que sai às cinco horas”.   Duas Panhards e quatro Unimogs dos Dragões iam escoltar cinquenta camions civis.  Era o abastecimento, quinzenal, do Zala e da Bela Vista, cuja escolta daquela vez cabia aos Dragões.                            Comandava a coluna o “Rato”,  e a escolta o João Moreira.             Há muito tempo que eu ouvia falar do Zala, onde as colunas eram sempre atacadas, ou pelo menos flageladas, e estava com imensa e mórbida vontade de ir lá espreitar,  mas ao mesmo tempo fazia-me um certo arrepio.   ...Por outro lado estava triste e sozinho em Luanda.     A Ingrid tinha-se zangado comigo e ido para casa da Mãe, em Lisboa.   E a ir ao Zala era com aqueles.     …Por isso perguntei:  Posso ir com vocês?”       -        “Só se arranjares uma farda.    ... E por amor de Deus não morras, senão estamos feitos”.

O meu primo Zé Manel (o Guedes Vaz), tambem alferes miliciano, estava destacado no Saurimo, e tinha deixado lá em casa uma muda de camuflado. Era grande demais para mim, pois que ele tem um metro e noventa, mas de mangas arregaçadas, até nem me ficava mal. Armas não me faltavam, pois tinha as da fazenda. (Felizmente nunca tive que usar nenhuma). Escolhi uma pistola FN, de 9 mm, com carregador para 12 ou 14 cartuchos, que me estava cedida pelos Voluntários (OPVDCA),   ...e ainda cheguei à coluna antes deles. Os soldados ficaram a olhar para mim com um ar muito admirado, mas eles chegaram logo a seguir e fizeram a apresentação ...como “correspondente de guerra”.     Houve um toque de clarim (intempestivo àquela hora, ali em plena cidade) e a coluna arrancou. Eu, que tinha subido para um Unimog, deitei-me no chão, ao comprido, pois não havia lugar no banco, o que até me convinha porque estava a morrer de sono.    Mas como os Unimogs não tinham taipais, para que os soldados saltassem depressa para combate, se pegasse a dormir acabaria por rebolar para a estrada. Porém os Dragões resolveram logo o problema.   O banco era corrido e os homens iam sentados dos dois lados, costas com costas.   Assim deitei-me debaixo do banco, por trás das pernas dos soldados, e já não havia o risco de rolar para fóra.   Devo ter adormecido imediatamente.

Fui acordado pelas tremendas sacudidelas do Unimog. Tinhamos deixado o asfalto e já singravamos em plena picada. Abri um olho,   ...estava o dia também a espreitar   ...e só via botas.

Quando consegui acordar por completo, e focar a realidade que me cercava, acho que apanhei o maior dos sustos. E até talvez tenha pensado que tinha sido raptado por terroristas. ...É que a única farda à vista, em toda a extensão da coluna ...era a minha. Todo o resto era um carnaval:   Tangas e calções de banho. Boinas, bonéts  e barretes de toda a espécie, turbantes   ...e até penas na cabeça.    O comandante da escolta envergava uma elegante jaleca, creio que de bombazine preta. Para completar, uma boina de veludo, com pon-pon, roubada a uma amiga nossa. O “Rato” estava fora de vista e já não me lembro como estava embrulhado. Na Panhard da frente, sentado na torreta do canhão, que era anti-carro e ali só servia para assustar, ia o vigia-corneteiro.  E cada vez que se ouviam detonações, e ele apontava para as colinas, o João Moreira, sentado ao meu lado no Unimog, berrava-lhe: “Toca a toiros, ...Toca a toiros!” ...E o clarim vibrava.

De inicio tudo aquilo me pareceu completa palhaçada. ...Mas mais tarde vim a perceber o seu estranho efeito psicológico: Do nosso lado, mantinha o moral ao alto e até mesmo a alegria. Do lado do inimigo, parece que o deixava completamente “baralhado”,  e o resultado é que nunca a escolta dos Dragões teve baixas, e foram muito raros quaisquer ferimentos. ...Enquanto que sempre que a escolta era feita por unidades expedicionárias,   da Metrópole, havia feridos e, não poucas as vezes, baixas mortais. ...Além de enorme desperdício de munições.   O facto dos Dragões serem tropa angolana, embora só um único fosse de raça negra, por acaso um dos alferes, talvez também ajudasse ao seu sucesso.      Os condutores eram continentais, transmontanos.    …Mais tarde conheci-lhes o mérito.

A dada altura começamos a ouvir rajadas de pistola-metralhadora, mas longe. Ninguém ligou nenhuma, e a coluna prosseguiu.           O tempo começou a escurecer à nossa frente,  e pouco depois estava a chover. …E assim se foi passando o dia todo. Mais tiro, menos tiro, e cada vez mais chuva.   Por volta das cinco da tarde    já os tiros se ouviam muito próximos, e as detonações eram mais fortes, já de espingardas. O mato, que chegava até à berma da picada, era tão fechado que nada se via através dele. Também se ouviam vozes, já muito próximas. A coluna seguia a paço de tartaruga, com os carros a enterrarem-se na lama.

…E foi então que o comandante da escolta deu voz  de paragem.

                                                                                                    (CONTINUA)