terça-feira, 30 de março de 2010

A DIFICIL OPÇÃO (Ensaio)

 

V. R.                                                                  Memória  -   Março  2006

                                                        -  I  -

Estávamos nos fins do Século XIV e, extinta a nossa primeira Dinastia, começava a esboçar-se uma nova era, a qual teria forçosamente que ser diferente de tudo o até então experimentado.

Os ultimos moiros já tinham sido, desde há muito, varridos das Praias Algarvias, e as Fronteiras norte e leste estavam quase definitivamente demarcadas. ...O Território era todo nosso!

O Futuro parecia sorrir ao pequeno Portugal, ainda jovem de pouco mais de 200 anos.

Mas, de modo inesperado e algo dramático, ...começa a constatar-se que esse Território, tão sofrido e almejado, não era afinal suficiente para sustentar o escasso milhão de Portugueses que eramos naqueles tempos. ...Para os Moiros tinha chegado! ...Mas os Moiros não eram muitos, ...e capazes de fazer agricultura até no próprio deserto. ...Porém para nós, com fraco saber agrícola e pobre apetrechamento, não chegava com certeza.

Terras na verdade férteis, só os vales do Mondego e do Tejo, e as planuras de estuário do mesmo Tejo e do Sado. Mas essas eram as justamente necessárias para o Trigo, para o Pão de Cada Dia. ...Outras culturas? ...Já os Vinhedos,  ...os tinha mandado o nosso avisado rei D.Dinis para as encostas do rio Douro, originando uma empresa, épica e sacrificada, que sabemos agora só ser comparável aos arrozais em desníveis da China e  Japão.

...Gado, ...só miúdo. ...Para o grosso os pastos eram fracos, face às chuvas quase sempre irregulares. ...Pescas? Tinham pouca expressão naquela época. ...Como agora, por outros motivos, nos torna a acontecer. ...Riqueza Mineira? ...Os romanos, 1.500 anos atrás, haviam-na praticamente levado ao esgotamento.

...E, face a essas razões, deparámos-nos, pela primeira vez, com o crónico Dilema Nacional:

...Por mais voltas que se dessem, só dois caminhos se ofereciam. ...Duas restrictas Opções:

A)  -   Contemporizar com Castela, aceitando a tendência, que começava a desenhar-se, para um movimento unionista que, um século depois, sob os Reis Católicos, iria culminar na coligação de quase toda a Península ao redor dessa mesma Castela. ...E a que, perdido aquele momento de opção, teriamos fatalmente que aderir, ...até face à séria Teoria, já nesse tempo sentida, de que, geográfica, demográfica e economicamente, eramos nós parte integrante da Espanha ( Ou seja da Hispânia, ...ou Ibéria, ...ou como se queira dizer).

B)  -   Tomar os Rumos dos Mares, ...na procura das Terras do “outro lado”.

E a escolha fez-se ! ...E foi, como é sabido, ...a da Revolução de 1383 e,  dois  anos  depois,   ainda  muito  mais  grave  e decisiva,       ...a  da  BATALHA  DE  ALJUBARROTA.

...A DIFICIL OPÇÃO tinha sido tomada!

Trinta anos decorridos estávamos em Ceuta, em demanda do Trigo do Reino de Fez, que sabíamos abastecer a ainda moira Andaluzia, já quase toda cercada pelos reinos cristãos. ...Porém o trigo tomou outros caminhos, e assim Ceuta se transformou num fiasco, bem como todas as Praças, depois conquistadas, na Costa do Marrocos. ...Mas que seja permitida uma correcção: É que na verdade …nem tudo foi fiasco. Há com certeza que excluir os instrumentos náuticos, árabes e moiros; astrolábios, agulhas de marear, tábuas e al-manaques, aos quais tivemos acesso nas embarcações nesses portos apresadas, e que nos permitiram a navegação ciêntifica do Atlântico, tal como os árabes, dois séculos atrás, tinham tido as suas epopeias do Indico e do Pacifico.

...Mas íamos sempre navegando para sul, e acabámos por chegar à Costa da Mina (Hoje mais ou menos a Nigéria) ...E aí sim! ...Tinhamos chegado às riquezas! ...E de lá começamos a trazer o oiro e o marfim.

...Mas tambem a colaborar, com europeus e africanos, num outro "comércio", corrente e natural naquela altura, ... porém hoje “de muito triste memória”...

...E depois foi a Guiné, ...e Angola! ...Mas, à época, pouco valor se dava a essas terras. Não estávamos propriamente à procura de plagas quase virgens, mas sim de Paises mais ricos e desenvolvidos do que o nosso, capazes de nos fornecer tudo aquilo que não tinhamos.

...Dobrado o Cabo, chegámos às Indias! E então, nesse 2º século de Expansão Ultramarina, ...das Indias fomos vivendo! (...Extrema riqueza para alguns! ...E muita amargura para outros.) ..Até aos dias em que holandeses, e depois ingleses (nossos aliados) nos escorraçaram das melhores posições.

Mas, impedidas as Indias, ...saltámos para o Brasil, ...até aí quase esquecido, ...e nesse Terceiro Século Ultramarino foi, como se sabe, do Brasil que nos valemos.

...Todavia, com a independência brasileira, surge a ameaça de também essa fonte vir a acabar, fatalmente ressequida. ...Entretanto ...e surpreendentemente, mediante certos arranjos de tenças e pensões de familia e um comércio de preferências tradicionais, foi ainda o Brasil capaz de nos ir amparando, por mais uns tempos, até à proclamação da sua República...

...Quando finalmente tudo se acabou, olhámos em roda. ...E o que restava? ...A África!

...Sobretudo de Angola e de Moçambique poderiamos fazer outros Brasis!

...E foi o que se tentou:

...Mas Moçambique revelou-se afinal mais pobre do que pensávamos. Só, muito depois, as chamadas “companhias magestáticas”, normalmente “concedidas” a ingleses, com a sua agricultura extensiva, do chá ou do algodão, para a qual nós portugueses não estávamos de todo vocacionados, se provou virem a ser realmente produtivas.

A maior distância à Metrópole também não ajudava. ...Até aos ultimos tempos da nossa colonização, a principal exportação de Moçambique era a da castanha de cajú, espontânea, apanhada no solo pelos garotos das sanzalas e vendida a baixo preço aos comerciantes indianos, que a expediam para o estrangeiro.

...Mas e Angola? ...Essa comprovou-se ser fabulosamente rica! Angola!

...E foi este, quer se goste ou não da ideia, o nosso verdadeiro percurso económico.

O Milagre Português, além da expansão religiosa e civilizacional, que nunca nos poderá ser negada, foi sobretudo o de sempre ter conseguido amparar a sua economia nos sucessivos Ultramares descortinados!

...Mesmo a passagem pelos 60 anos dos Filipes (Em que Portugal nunca perdeu oficialmente a sua independência, pois que o II de Espanha se chamou I entre nós. ...E assim até ao fim da dinastia), não havia chegado a interromper a mecânica deste processo.

...Sem as colónias teria sido altamente improvável, senão por completo utópica, a perduração, por tantos séculos, de um Portugal independente.

...Mas a partir da segunda Grande Guerra (Sobretudo desde 1942) foi quase exclusivamente Angola que sustentou a nossa economia: Começámos pelo Sisal, vendido aos USA para a rama-explosiva dos canhões navais, depois o Café, com seu tremendo desenvolvimento, a seguir as Madeiras, a farinha de Peixe, o Algodão, o Ferro para o Japão, os Mármores para Itália, ...uma diversidade de Minérios ...para toda a parte. ...etc., etc. ...E ainda o Ouro págo pela África do Sul à Diamang.

...Porém foram sobretudo o Petróleo e os Diamantes que pagaram as 3 Guerras Coloniais, além da “expressiva remessa de Moeda Forte” que, enviada para Portugal até 1975, parece ainda ter durado pelos anos 80, ...já com as colónias desde há muito independentes.

A “Receita em Divisas” de Angola, nos anos 70, terá tavez sido décupla da que a Metrópole conseguia por si própria, mesmo incluindo os vinhos, em barril e tanque, e os tecidos de algodão, que afinal tambem para Angola, e para as outras colónias, eram exportados.

“Divisas” essas imediatamente expedidas para Lisboa, ...enquanto se pagava aos locais ( europeus ou africanos ) em “angolares”, ...e mais tarde em “escudos-angolanos”, ambos inconvertíveis.

...E assim ...foi Portugal considerado o Milagre Económico Europeu de 1973!

 

                                       A DIFICIL OPÇÃO

                                                     -  I I -

Estamos em Março de 2006 e acabámos de eleger um novo Presidente da República.

Há um ano atrás tinhamos feito a escolha de um Governo Socialista, que até agora tem desempenhado com razoável eficácia o seu “possivel” exercício.

Assim do ponto de vista propriamente “Politico”, Presidente e Primeiro Ministro, ambos são “democratas”.

Quanto à sua feição “Politico-Económica”, teremos que o Presidente será “Liberal”, enquanto que o 1º Ministro é “Socialista”. ...Perdoe-se-me se estou enganado!

Poderemos ter assim chegado a uma “fórmula de óptimo equilíbrio”. ...E é no “superior entendimento” entre os dois, que depositamos toda a nossa “esperança”, pois que a crise, em que acabámos por cair no inicio do milénio, apesar da imensa ajuda da U.E., parece ter atingido agora profundidades abissais e, na perspectiva de abrandamento do feed-back europeu, só com muito esforço e imaginação conseguiremos alguma vez sair do fundo do poço.

Perdemos as ultimas Posições Ultramarinas há 30 anos, e só agora se começa a compreender que Portugal não era “viável” sem elas!                                                                                                                   Sabemos que foi “o Mundo” que nos obrigou a  abandoná-las.     ...Mas poderiamos de lá ter saido de melhor maneira!

...Ou até mesmo lá ter, em grande parte, permanecido. O mal não foram as Independências, ( ...Que teriam que acontecer.) ...O mal foi o abandono! (…Que não podia ter acontecido!)

...E todo o Angolano esclarecido nos acusa agora exactamente disso. ...De qualquer modo também sabemos que, na época presente, era impossivel continuar, ao nosso antigo “jeito”, ...pois que só as super-potências podem ter, ou fazer, colónias, e isso em moldes completamente diferentes.

...Mas então há que procurar outras soluções, ...pois parece que a União Europeia, indispensável para salvaguarda da Europa, e até para que os europeus voltem a ter as suas tradicionais força e dignidade, não será afinal “panaceia para todos os males”. Parece-nos por isso que não irá resolver, em especificidade e pormenor, os problemas íntimos e as carências endógenas de países  pobres e pequenos como Portugal.

Assim, perante o dramático panorama, de desemprego, pobreza, inflação e até (Talvez e paradoxalmente) deflação, com que presentemente nos debatemos, sabendo que será extremamente difícil instalar novas Industrias, com técnicas penosas de aprender, ou uma nova Agricultura, moderna e sofisticada, ...financeiramente incomportável, ...ou ainda Serviços de Luxo ( Turísticos, de Saúde, ou outros ), que poderão ajudar, mas que não resolverão o nosso “Mal”, ...quase começamos a sentir-mo-nos outra vez perante A DIFICIL OPÇÃO de seis séculos atrás: ...ESPANHA ? ...OU ÁFRICA ?...

...Contudo, de Espanha, embora não viéssemos a sofrer qualquer perda de nacionalismo ou patriotismo com uma “Confederação”,

...continuamos a dizer ...“que nem Bom Vento”…

Não sabemos se há lógica nisso. ...Afinal praticamente todos os Estados Europeus são Uniões de pequenas (e até geralmente menos pobres) Nações como a nossa: O Reino Unido, a Itália, a Alemanha, a Holanda, a Bélgica, a própria Espanha, ...todos são “Uniões.” ...E até na América, ...o Brasil é uma Federação, ...e os Estados Unidos ...são “Unidos”.

...Mas NÓS não queremos! ...Talvez em parte, e de há longa data, por uma certa influência estrangeira, “nós”, que até possivelmente conseguiríamos resolver os nossos problemas com uma Solução Confederada, ...“Nós”, nem pensar! Preferimos o Orgulhoso Sacrificio do SÓS.

...E Assim Seja!

...Mas então resta a outra Alternativa: Outra vez o ULTRA-MAR, ...outra vez a ÁFRICA!

...E, na melhor das hipóteses, outra vez ANGOLA!.

...Claro que não pensamos em colonizar Angola, ...agora um Estado de Direito ...e muito maior e mais rico que o nosso. No que pensamos é numa Cooperação Ampliada, Cultural e Económica, que, se feita nos moldes convenientes, os Angolanos aceitarão e que seria, para todos, da maior conveniência.

Como o desenvolvimento cultural e até industrial e agricola de Angola ainda será, por muitos anos, processado em lingua portuguesa, é evidente que haverá sempre a maior necessidade de professores, engenheiros e outros técnicos; ...Médicos, ...veterinários, ...agrónomos, ...etc., ...etc.

...Serão precisos também manuais didácticos em português, literatura cultural e ligeira, ...toda uma diversidade de material tipográfico, ...e até cartográfico

...E muito, muito mais!...

...Em contrapartida poderiamos nós tomar posições preferenciais relativas a muitas das produções de Angola, que colocariamos por toda a União Europeia, ou poderiamos reexportar, em muitos casos com “draubaque”, para quaisquer outros mercados.

...Porque não voltar a desenvolver a nossa Medicina Tropical, que chegou a ter vulto de relevo internacional nos anos 50 e 60? ...Porquê não construir um Hospital Universitário Português em Luanda ? ...E um Instituto Superior de Agricultura Tropical? Para Angolanos e Portugueses, claro.

...Isso sim, seria real e genuina Cooperação.

Porque não propor a Angola um “Regime de Concessões Agricolas” ( De 30 ou 40 anos, por exemplo), que empregariam milhares de Angolanos, e que findos esses anos, lhes seriam entregues em definitivo.

A 120 Kms de Luanda, a partir do Úcua, começa uma região de floresta e café, a das antigas plantações dos Dembos, com cerca de 2.500 Kms 2, que constituem um “mundo maravilhoso”, ...praticamente abandonado! ...Lá trabalhámos por mais de 20 anos, até 1975.

Em Julho e Agosto do ano passado percorremos grande parte da área, e verificámos que, das 40 a 50 fazendas que ali laboraram, pelo menos metade ainda está perfeitamente recuperável.

Para se começar, julgamos este um estupendo projecto para os nossos estudantes de agricultura e silvicultura! ( ...E até talvez as Organizações Internacionais nos ajudassem.)

Simplesmente tudo isto teria que ser negociado com um máximo de inteligência, honestidade e respeito, de parte a parte.

...E o Processo levado ao ponto de Grandes Empresas Nacionais dos dois Paises.

...Há concerteza um “aspecto” de que podemos estar completamente seguros:

Os Angolanos gostam de Nós, ...preferem-nos a Nós. ….E Nós continuamos a gostar ( E a compreendê-los como mais ninguém ) …dos Angolanos.

...Mas tal “aspecto” tem que passar do “abstracto”, ...tem que ser “concretizado”!

...E para terminar, tudo o que espero é que este apontamento chame a atenção de alguém com mais capacidade, menos idade, e em melhor posição do que eu, para estudar e, se lhe encontrar algum mérito, desenvolver e activar um tal Projecto.

Março de 2006 J. Sá-Carneiro ( * )

( * ) José Antonio de Sá Carneiro

Natural de Lisboa – 1927 ( Nacionalidades Portuguesa e Angolana )

Despachante-oficial da Alfândega de Luanda de 1952 a 1975

E das Alfândegas Portuguesas desde 1980

Diplomado em Services Marketing Management pelo SAMA de JHB

Licenciado em História pela Universidade Aberta de Lisboa

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ANGOLA E OS PORTUGUESES - I -

“COLONIALISMO” ?  OU  “COLONIZAÇÃO” ?

                                                                                           ( MEMÓRIA 1989 )

É costume dizer-se que os portugueses estiveram em África  5 séculos. ...É verdade, mas durante 4 desses séculos só estiveram nas costas de África. ...De inicio tudo o que lá tínhamos eram pequenas feitorias, que apoiavam caravelas e naus em demanda das Indias. A riqueza, em potencial, de Angola não nos interessava:  ...Ao tempo não se falava em petróleo! ...E muito menos em urânio. ...E já em pleno século XIX construíamos casas na baixa de Luanda, ou em Benguela, empregando madeira ... levada do Brasil.   ...Para além de Massangano, conheciamos tão pouco o interior, que nem a madeira aproveitávamos.

...A verdadeira colonização de Angola só começou depois da Conferência de Berlin (1885). ...Podemos portanto dizer que Angola só foi colonizada pelos portugueses durante 90 anos, até à sua independência em 1975. É facto que ao tempo das feitorias já se fazia um pequeno comercio, de permuta, com os nativos: Um pouco de ouro e algum marfim, contra missangas, facas de aço e tecidos, tudo em muito reduzida escala. ...Fazia-se entretanto um outro comércio, esse de infeliz memória, mas que era uma prática natural e costumeira daquelas épocas: a “escravatura”. ...E está agora em grande moda vilipendiar a expansão europeia pelas Áfricas, com ataques perversamente dirigidos ao“colonialismo” e à “escravatura”. Claro que esses são aspectos que nunca poderemos tentar embelezar. ...Mas podemos é passar a olhá-los com uma atitude diferente, ...sem vergonha, nem remorso.            A escravatura era, desde os tempos mais remotos, uma prática instituída entre todos os povos  africanos.                                            

As tribos maiores e mais poderosas apressavam e escravizavam as outras ( Quando ás vezes não acontecia pior ).  No comércio esclavagista para “fóra”, para as Américas, era sempre um negreiro africano que fazia a venda a um europeu.  …E podemos dizer que tiveram muita sorte os escravos que atravessavam o Atlântico porque, passado o martírio da viagem, tudo nas Américas era incontestávelmente melhor do que o destino que lhes estava reservado em África.        …Para eles, e sobretudo para as gerações deles descendentes.       A maioria das pessoas não tem a menor noção do que era a vida em África antes da chegada dos europeus.  ( Tudo o que lá me foi possível estudar, durante quarenta anos, me leva a concluir que a vida era “um completo horror”:    O nomadismo da eterna corrida atrás da caça, porque a caça corria atrás da chuva.   …e quando não a apanhavam, as grandes fomes cíclicas que tinham que levar à antropofagia.  Eram caçadores- recolectores.  Nunca fizeram um mínimo em agricultura.  A mandioca,  o milho e a batata só para lá foram levadas, pelos portugueses, já em pleno século XVIII.  Antes disso tudo o que comiam eram algumas raízes,  e raros frutos, de que nem gostavam.   Não sabiam pescar, nem de rede, nem de anzol, e os seus arpões não tinham barbela.                            A par disso, os constantes sacrifícios humanos, de feitiçaria ou religião, muitas vezes de crianças e raparigas, eram de um horror indescritível.  Ou as execuções por supostas razões criminais.         

E ainda as terríveis “cirurgias” praticadas a quando da puberdade das raparigas, que muitas vezes as vinha a matar com infecções.

Não, não nos venham falar do Mito duma “vida cor de rosa em África” antes da chegada dos europeus.                     

                                                    ____________

“Colonialismo” seria obrigar o colonizado a trabalhar para o colonizador sem que este ultimo tivesse que o fazer. Mas isso era o que faziam alguns portugueses daqui da Metrópole, ao beneficiarem das “divisas” obtidas por Angola, sem precisarem de trabalhar em África. ...O que se fazia lá era outra coisa: Era “colonização”. Era o branco a trabalhar ao lado do africano, e em muitos casos mais 2 ou 3 horas por dia do que aquele. ...E a colonização não continha só aspectos negativos. E nem sequer era propriamente degradante ou aviltante, como agora se quer fazer crer. Os antepassados dos portugueses tambem foram colonizados. ...Seiscentos anos só pelos romanos, que até nos ensinaram a ler e a escrever, que até nos civilizaram! ...E mais tarde, uns 4 séculos pelos árabes, com quem também muito aprendemos.

...Afinal como é que toda a Europa foi civilizada? Exactamente pelos mesmos romanos, com séculos e séculos de colonização. ...E mais tarde, pelo menos os Paises do Sul, pelos muçulmanos, árabes e moiros, que lhe trouxeram o conhecimento da agricultura (P. além do trigo), da arquitectura (d’arcos e ogivas), da medicina e da farmácia, da filosofia (Pela tradução dos clássicos gregos) e até da música (Alaúde, que deu origem à guitarra).    E também da matemática, incluindo os "Al-garismos" e o conceito de “Zero”, que originou a “Álgebra”, seja a  diferenciação positiva-negativa,  expressa por algarismos  e letras.     …E por fim, o “Sistema Decimal”.

A colonização da África ( A Sul do Sahra ), essa foi feita pelos europeus, ...mas só a partir da Conferência de Berlim, que, por proposta portuguesa, teve lugar em 1885. ...Tendo portanto tido muito curta duração: Cerca de 60 anos no caso do Congo Belga, ou da Guiné Francêsa. ...85 anos em Angola, a mais longa, ...não falando da África do Sul, ...que teve uma descolonização “por dentro”, pois que a potência colonizadora era Pretória.

...E, embora de certo modo intensiva e dinâmica, foi afinal branda e benigna, e de  curtíssima duração,  se a  compararmos com os mil anos de colonização romana na Europa.

Pela colonização os europeus conseguiram, em menos de 100 anos, arrancar milhões de africanos da Idade da Pedra e guindá-    los para o Século XX. Doutro modo esses africanos teriam sido obrigados a percorrer milénios para fazer o mesmo percurso!

....Também se fala agora muito de “escravatura”. Em realidade foi muito triste a escravatura! ...Mas não teremos nós memória?  Na verdade os africanos (alguns) foram escravos dos portugueses, por cerca de 200 anos. Mas os avós dos portugueses, como todos os europeus ( Como todos os povos do mundo) foram escravos por milhares e milhares de anos. Já não nos lembramos que os nossos antepassados remaram nas galés e morreram nos circos de Roma? ...Custa a compreender porque é que nunca houve pressões sobre os árabes do norte de África, que também são estrangeiros naquelas terras, e esses sim, ainda hoje são esclavagistas, ...e foram escorraçar-nos, a nós portugueses, que tão dolorosa falta fazemos lá em baixo,...e que estávamos de tal modo interligados com os africanos que poderíamos ter passado juntos à independência, sem atrito de maior. Angola, pela sua cultura Luso-Africana,  neo-crioula,  que a tornava diferente de qualquer outro país do Continente Negro,  parecia pouco vulnerável aos ataques das grandes potências. ...Afinal as super-potências conseguiram subverter Angola ...E nós fugimos de lá, deixando-a com 4 facções em guerra, e os angolanos em grave risco dum regresso à sua desgraça milenar:   Doença do Sono, Paludismo, Cólera, Lutas Tribais.    ...E por fim ao Retorno da            Escravatura”, pois que, antes da chegada dos europeus à África,  os povos  negros eram todos escravos uns dos outros.                      E  agora bem pior, porque eles já não sabem sobreviver na selva, como “quando corriam atrás da caça, quando a caça corria atrás da chuva”,   mas também ainda não tinham aprendido a viver nesta nossa perigosa e traiçoeira  “civilização”.                                     O outro risco é cairem em poder de uma das tais super-potências, a quem só interessa o petróleo e determinados  minérios, sem perderem um minuto com a promoção da agricultura e, de um modo geral, sem o menor interesse pela promoção civilizacional dos angolanos.

                                                                                                               

ANGOLA E OS PORTUGUESES - II

Portugal sempre viveu dos seus sucessivos  Ultramares.              Mal tínhamos empurrado os moiros das praias algarvias e já corríamos para Ceuta.    E depois pelas Áfricas  todas, pelas Indias, ...pelos Brasis. Parece que sempre soubemos que isto aqui não chegava para nos sustentar! ...E éramos poucos mais do que um milhão naqueles tempos. ...E assim foi a epopeia nacional! Mas depois fomos perdendo as Indias ( Seja: o seu comércio) ...os Brasis, ...e por fim só nos restavam as Áfricas. ...E das Áfricas conseguimos viver grande parte dos séculos XIX e XX.

...Mas, sobretudo a partir da ultima Guerra Mundial, foi Angola que nos manteve.

(Angola, que já nos anos 30, através do contrato entre a Diamang e a Anglo-American, tinha págo metade da escandalosa divida da 1ª República ao estrangeiro.   …A outra metade foi pága por Moçambique, pelo prémio-ouro dos mineiros,  contratados pela África do Sul).                                                                                                      

E que, sobretudo após 1942, passando a exportar, em grande escala, o sisal, para os USA, para material de guerra, e depois os diamantes, o café, as madeiras, o algodão, etc, para toda a parte, se converteu num potencial “gerador de divisas”, que foi sustentando a Metrópole, até que começou a exploração do petróleo.

...E daí para a frente a Metrópole deixou de ser sustentada,  para passar a ser enriquecida por Angola. ...É dificil compreender como neste País a maioria das pessoas não tem a minima noção de que Portugal viveu o meio século, até 1975, quase que exclusivamente à custa de Angola, ...dos angolanos... e dos portugueses que lá estavam.

(Claro que à época isso não se podia confessar, porque era... “colonialismo” !)    Poderemos mesmo afirmar que as “divisas” ( dólares, libras, marcos ...e o ouro ) obtidas por Angola ainda nos sustentaram até recebermos as primeiras “ajudas” da Comunidade Económica Europeia.

Vejamos: Em 1973 Portugal foi internacionalmente reconhecido como “O milagre Económico Europeu”.   Esta afirmação é muito fácil de confirmar nos jornais da época. Ora nesse ano a maior receita em “divisas”obtida pelo Portugal metropolitano foi a dos magros 20 milhões de contos das pensões dos emigrantes. Seguida de 10 milhões do turismo (Record). As exportações ( Vinho, cortiça, pasta de tomate, tecidos, sapatos, etc.) não chegavam a ter expressão. Ainda por cima mais de metade dessas exportações destinavam-se exactamente a Angola e às outras colónias, que eram obrigadas a comprá-las, pelo que vinha tudo a dar na mesma.

Os portugueses de raça europeia de Angola eram só 600.000 ( 50% crioulos,  50% metropolitanos ) e, mesmo com a importante colaboração dos angolanos, não conseguiam explorar mais de 10% da riqueza em potencial da colónia, dizia-se. ...Porem esses 10% da riqueza angolana seriam o décuplo de tudo aquilo que a metrópole conseguia produzir.    Difícil de confirmar. Talvez um pouco menos, ...ou até muito mais. As contas eram secretas. Só o valor do petróleo já ultrapassava em muito tudo o que cá se produzia. Mas depois era o ferro para o Japão, o ouro, o urânio, o cobre e o manganês, outros metais, e os diamantes e outras pedras. O café, o algodão, o sisal, o açúcar, a soja, o girassol, o peixe e a sua farinha, o marisco. etc, etc, etc.

...E foi com tudo isso que conseguimos ser “O Milagre Económico Europeu de 1973”

...Angola pagava as 3 guerras africanas e ainda sustentava a Metrópole!

Angola era a “Usina” que sustentava Portugal! Era a portentosa e frutuosa “Usina” que mandava para cá os dollares, os marcos e as libras de que os portugueses viviam, ...sem saber!

...Mas quem fazia funcionar uma tal “Usina”? ...Eram os portugueses que lá estavam, evidentemente! ...E seus colaboradores angolanos. ...Que, trabalhando em climas doentios com temperaturas de 40 graus, muitas vezes em regiões infestadas pela mosca do sono e a malária, arriscando-se, depois de 1961, ao perigo constante ( 60% dos europeus vivia no interior ou diariamente o atravessava ), pois que, enquanto a tropa se deslocava em companhias ou pelotões, eles viajavam sozinhos e praticamente desarmados.

Os Portugueses de Angola, esses sim, é que eram colonizados e escravizados por Portugal!

ANGOLA E OS PORTUGUESES - III

Os Portugueses de Angola...que Portugal escravizava, ...porque embora fossem eles a ganhar os dólares, os marcos e as libras, pelas suas exportações, ...Portugal não lhos entregava!

O Fundo Cambial sugava a Moeda Forte e dava aos colonos “angolares”, que eram uma espécie de “vale” do escudo, mas com o cambio mais baixo e que só tinham valor lá na colónia.

Mais tarde inventou-se o escudo de Angola, com um valor ainda mais baixo que o antigo angolar. E era pagando nessa moeda que Portugal escravizava os seus colonos. Anos e anos a trabalhar e, no fim, o dinheiro não valia nada, pois que, para o trocarem, chegavam a descontar às vezes 50% ...e, mais tarde ainda pior....E por fim o seu valor era ZERO!

E desse modo, mesmo aqueles que, com muitos anos de África, queriam voltar, iam sempre ficando. E isso até à morte. ( Note-se que a média de vida em Angola era de uns bons 10 anos mais curta do que aqui na Metrópole ).

...É tambem verdade que 80 a 90% dos colonos de Angola não chegavam a ter esse problema, pois o que ganhavam só daria à recta para o seu dia-a-dia.

Mas, a pesar de tudo, os portugueses gostavam de lá viver. Modestamente, é verdade. Em Luanda não havia sequer uma residência de prestigio, como aqui em Portugal. As melhores casas, na Rua do Miramar, eram pertença de estrangeiros. Não existiam talvez nem 6 piscinas. Os automóveis eram conservados por 8 ou 10 anos,  e usavam-se pneus recauchutados. ...Mas os portugueses iam suportando tudo e mais alguma coisa   ( Até mesmo os massacres de 1961, quando 2 milhares  foram mortos, em 3 dias e a soldo estrangeiro, cortados em postas à catanada. No Kénia  o  mao-mao  tinha assassinado 85 ingleses em 5 anos e foi um escândalo mundial, mas 2.000 portugueses. em Angola, foi coisa sem importância nenhuma.)

...E, quando vinham de férias à Pátria ( Há uns tempos atrás a licença graciosa era de 5 em 5 anos), sentiam a maior satisfação ao ver as estradas, as pontes, as barragens, os hospitais e as escolas que aqui se iam construindo com os dolares e os marcos que eles lá iam ganhando.            ...E foi a esses portugueses, tão generosos e sacrificados, que, a troco dos tais angolares ou, muitas vezes, a troco de nada, sustentaram Portugal praticamente durante meio século, que a Pátria, sob o desvario dum momento até hoje inexplicável, ...traiu. ...Traiu quando lhes prometeu defender as suas vidas; ...traiu quando lhes garantiu salvaguardar os seus bens ...E traiu, por fim, quando o exército português lhes arrancou as armas ( de caça ou de defesa ) de que alguns dispunham, para as entregar ao tal “poder popular”, que os próprios partidos africanos diziam nem conhecer, e que era afinal formado por uma corja de bandidos e assassinos!

...E foi assim que se arquitectou a “trágica debandada”!

Recorde-se que em 1961, quando dos grandes massacres, a tropa branca reduzida aos 85 dragões do agora coronel José Maria Mendonça Junior, que salvou Luanda e ainda foi libertar os fazendeiros sitiados em Nambuangongo, e com a população completamente desarmada, ...ninguém arredou pé. E assim se mantiveram até ganhar a guerra em 1968 e a entregar Angola em 1975.        ...E o mais triste é que (14 anos depois) todo aquele descalabro se veio a desencadear, uns meses antes da independência, e ainda ao tempo da Soberania Portuguesa!

Foi a esses portugueses que, quando aqui chegaram, muitos deles feridos por espancamentos, com as roupas em farrapos e a angustia nos corações, até porque, em muitos casos, se haviam perdido das próprias famílias, que nem sabiam se mortas se vivas, ...que os seus gratos, reconhecidos irmãos da Metrópole olharam com desconfiança e baptizaram de “Retornados”.

...E ainda foi a esses que, mais tarde, quando se percebeu que todas as garantias que a Pátria lhes havia dado eram “pura conversa fiada” e que estavam reduzidos, de almas, corpos e haveres, a completos frangalhos, os seus compreensivos compatriotas de Aquém-Mar crismaram, espirituosamente, de “Espoliados”.

ANGOLA E OS PORTUGUESES - IV

Esta nossa democracia tem vantagens e desvantagens. ...O Voto, por exemplo, não será propriamente uma vantagem. O Voto é vulnerável, porque é influenciável ...e até manipulável. ...Pelo Voto ganha sempre a “Quantidade”. ...Nunca ganha a “Qualidade”.

Mas o “Deputado”, esse é uma vantagem, com certeza. É uma maravilha termos um Deputado que vai à Assembleia da República defender os nossos interesses, o Nada que ainda é nosso.

...Mas quando se pergunta a um português “Quem é o teu Deputado?” ...A resposta é infalível: “Sei lá! ...Não faço a menor ideia”.

Os tais “Espoliados” esperaram 25 anos para que um Deputado tivesse a coragem e a generosidade de ir à Assembleia da República explicar e defender a sua causa, que muita gente, “desonestamente”, quer esquecer. ...E quando, por milagre, apareceu esse Deputado, ( Um Homem, que afinal ainda havia ), com honestidade, inteligência e coragem para tentar a tal “missão ingrata”, e os Espoliados, depois de horas à chuva, se dispunham a entrar na “Casa de Todos Nós”, para assistir à defesa duma causa que só a eles dizia respeito, ...a Policia, ou quem mandava nela, ...impediu-lhes a entrada! ( Esse deputado foi o dr. Paulo Portas.)

...Isto deve, realmente, ser caso único na história das democracias! ...Mas foi verdade!.

...É tão vergonhoso que nem se suporta falar mais sobre o assunto! ...Adiante!

Para não nos espraiarmos muito mais, parece-nos que, pela série de razões atrás expostas, os portugueses de Angola, como de resto os de Moçambique, Guiné ou qualquer outra das “saudosas Provincias Ultramarinas”, têm que ser merecedores de todo o nosso respeito e consideração. ...E até mesmo da nossa gratidão, por tudo aquilo que sempre foram proporcionando a Portugal, enquanto lhes foi possivel.

...Em vez disso, só têm recebido incompreensão, antipatia e até troças.

Como foi possivel levar à televisão uma palhaçada em que se escarnecia dos espoliados? (Dela fez parte o jornalista Miguel Sousa Tavares, o que lamento). Até se chegou à conclusão de que eram os novos países ( Independentes ) que deviam pagar as indemnizações aos espoliados.  ...Então os grandes países europeus foram todos uns tansos quando indemnizaram os seus colonos?  Portugal assinou o Tratado de Versailles.  Esse tratado foi firmado após a 1ª Grande Guerra, claro, mas das suas cláusulas emanaram Leis que continuam, em muitos exemplos, a ser respeitadas e seguidas. ...E naturalmente até a vigorarem. É favor ler com atenção o seu Artigo nº 297, que define exactamente a responsabilidade nos casos de descolonização por guerra.              E o mal não foi a descolonização.  Não é dela que os retornados se queixam.   …Inconcebível e estúpido é o modo como foi feita, e a desastrosa espoliação que consentiu ou que, até mesmo, encorajou. ...De resto não reconheceu o Estado Português essa responsabilidade ( E essa divida ) quando foi criado o “Gabinete dos Espoliados” ? ...Possivelmente já dissiparam as verbas com que esta sagrada e escandalosa divida deveria ter sido paga.     Mas o problema é de tal modo grave que, agora sim, se justifica recorrer à Banca Estrangeira! ...Ou, em ultimo caso, que se pague em Titulos do Tesouro do Estado, ou em quaisquer outros Valores Nacionais. Desse modo não teriam que ser desembolsa-dos a pronto os montantes da divida. Iriam pagando os juros respectivos e resgatando parceladamente esses Titulos....Seriam assim repostas a justiça e a legalidade, ao mesmo tempo que decerto se garantiria, pela mão competente dos retornados, uma aplicação honesta e inteligente desses capitais, ...em vez do costumeiro desperdício!

J. SÁ-CARNEIRO                                         

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A OPÇÃO IBÉRICA - VI Ainda 4 pequenos subsídios

IBÉRIA ? ...OU  HISPÂNIA?  VI     -    ( Ainda a União)

                                                                      ( Memória – Nov.  2002 )

1 - A LINGUA - Depois que os romanos abandonaram a Peninsula, o Latim Bárbaro, que que cá deixaram, tendeu, pouco a pouco, a transformar-se numa nova lingua, que podemos considerar comum a quase todos os povos Ibéricos, e que se chamou “Romanço” (Tendo tomado os nomes de “romance”  e  “romansh” noutras regiões da Europa romanizada).

Na Ibéria, esta nova lingua, por sua vez, acabou por se dividir numa série de dialectos:

O Catalão, o Castelhano, o Galego, etc. ( O Basco nada tinha a ver com o romanço, sendo antes o unico dialecto que restava, e resta, dos primitivos Iberos ).

Porque Castela se revelou rapidamente o mais dinâmico e combativo dos reinos peninsulares, o castelhano acabou por se tornar a lingua geral, embora se tenham mantido os dialectos locais.

Os primeiros “portugueses”, dado que o Condado foi originado da parte sul da Galiza, como é natural, falavam o galego. Mas, depois da separação, com o contributo moiro, e o correr dos anos, acabou por vir a formar-se um novo Dialecto (Ou Lingua, se preferem): O Português. Infelizmente, embora a nossa Lingua seja hoje falada por cerca de 200 Milhões de lusófonos, não foi ela aceite como lingua da União Euopeia. ...Mas o Castelhano sim!.

Mais: A OMC - Organização Mundial do Comércio - e a OMA - Organização Mundial das Alfândegas, os dois organismos mais importantes do Comércio Internacional, optaram por unicamente quatro (4) linguas: O Inglês, o Francês, o Castelhano (Ou Espanhol) e o Russo.

...Não o Alemão, nem o Italiano, ...nem o Português.

Põe-se agora um problema: Claro que Portugal, como tem sido moda desde a ultima Guerra Mundial, escolhe imediatamente o Inglês como Lingua Internacional!    ...Mas tal poderá ser um tremendo erro!                                                                                                      

...Porque a verdade é que, embora toda a gente consiga falar “um bocadinho” de Inglês, pode assegurar-se que 99% desses “anglófonos” o falam pessimamente,    ...e muito menos o escrevem. Uma coisa é perceber as letras das canções, ou namorar na praia, ou até mesmo escrever pequenas cartas de baixo comércio.    ...Outra coisa é dominar essa lingua, que nem sequer tem o apoio duma verdadeira gramática, ao nivel das nuances da redacção de importantes e “arriscados documentos politicos”, ou dos “altos comércio e finança internacionais”.                                                                                                       ...Todavia a grande maioria dos portugueses seria capaz de, com a necessária propriedade, e até relativa   facilidade,   ...falar o Espanhol !

...E assim já disporíamos, automaticamente, duma 2ª Língua, verdadeiramente Internacional

...E claro que seria óptimo que muitos deles pudessem tambem continuar a falar o Inglês.

2 - Um PARTIDO UNIONISTA IBÉRICO ( Partido de Transição)

Com os aflitivos apertos que se avizinham, parece-me ser mais do que a altura para que este partido seja formado! Não há nisso o menor inconveniente, nem se torna perigoso para nin-guem. ...Que não haja medo! ...Pois que nem mesmo sob os Filipes perdeu Portugal a sua identidade. ...E numas próximas eleições se verá qual a verdadeira vontade dos Portugueses

...Ainda hoje ouvi, num debate televisivo, alguem dizer que o volume e impacto que teria na Europa, e no Mundo, um Mercado de 50 Milhões (De produtores e consumidores) seria algo muito diferente do dos pálidos 10 Milhões que hoje  sozinhos)  somos!

...E há ainda a considerar a resultante projecção sobre os 160 milhões de brasileiros e os mais de 400 milhões dos outros latino-americanos.

3 - Um PARTIDO MONÁRQUICO ( Que poderá ser, ou não, o existente ).

O qual teria como seu primordial objectivo conseguir rectificar a Constituição, substituindo

“Eleição para Presidente da República” por “Eleição para Chefe do Estado”, podendo assim concorrerem, alem dos Candidatos Republicanos, tambem os Candidatos Monárquicos (Bragança e Bourbon, ...e mesmo outros).

Nota: Continuamos a considerar que os Partidos Monárquico e Republicano ( ...ou Democrático – seu sinónimo ) são Partidos de Estado. ...Nunca Partidos de Governo.)

Os Socialismo, Fascismo, Liberal-capitalismo, etc. é que são partidos de Governo.

4 – “AVISO À NAVEGAÇÃO”

Face às noticias, que todos os dias nos chegam em catadupa, pela TV, Jornais, Revistas, etc.     da instalação em Portugal dos grandes “shopings” espanhóis, de fusões e parcerias comerciais de toda a espécie, e absorção de Bancos e Seguros pelos seus congéneres do lado de lá,   não será de começar a temer ficarmos em breve reduzidos aos encargos e despesas de Governo e de Administração Nacionais, sem a contrapartida de lucros comerciais de qualquer espécie, ou até mesmo do pagamento de variados serviços ?

...Não seria preferível tomarmos nós a iniciativa desse inevitável “casamento”?

Cascais, 2002. Nov. 02

J. Sá-Carneiro

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CRIOULISMO - DISSERTAÇÃO

                                                                                                   J. Sá-Carneiro

                                                                                                   (Memória  2007)

CONCLUSÃO

( Embora este texto não seja mais do que um breve projecto, na iminência de sermos chamados a Angola em qualquer momento, e nada podermos fazer durante o 2º periodo, queremos deixar nele inscritos, num máximo possivel, "elementos de algum valor informativo", de modo a fazer jus, pelo menos a uma modesta Creditação. )

Qual a razão do nosso esforço no elogio do Crioulo Angolano?

Porque vivemos 40 anos em África ( Angola e África do Sul ), mas tambem o resto da nossa já longa vida aqui em Portugal, podemos facilmente chegar à conclusão de que, pelo menos actualmente, ambos estes Paises vivem mal. Sentem-se dificuldades e carências por todos os lados, e não se vislumbram as possiveis soluções.

Angola é rica, mas tem enorme carência de "quadros".

Portugal terá "quadros", mas é excessivamente pobre.

A verdade é que Portugal e Angola são, cultural e economicamente , complementares.

Já o sabiamos há 50 anos, e foi nessa base que, as economias de ambos, desde aí, e até à Independência de Angola, continuamente se desenvolveram.   ...E bem!

É evidente que Angola já não é colónia. Angola é agora um Estado Soberano, e muito maior que o nosso Portugal. Mas isso não impede, de modo algum, que se torne a estabelecer um "plano conjunto".

Assim vamos tentar reproduzir o que já foi dito algumas vezes, em artigos do nosso próprio punho:

"No que pensamos é numa Cooperação Ampliada, Cultural e Económica, que, se for feita nos moldes convenientes, os Angolanos decerto aceitarão e que seria para os dois lados da maior conveniência".

Como o desenvolvimento cultural, e até industrial e agricola, de Angola ainda será, por muitos anos, processado em lingua portuguesa, claro que haverá sempre a maior necessidade de professores, engenheiros e outros técnicos, agrónomos, silvicultores e até médicos . Etc.

25

...Porque não voltar a desenvolver a nossa Medicina Tropical, que chegou a ter vulto de

relevo internacional nos anos 50 e 60 ?

Porque não construirmos um Hospital Universitário, em Luanda?

Porque não uma Escola de Agricultura Tropical? ...Para angolanos e portugueses, claro.

Angola precisará também de manuais didáticos, literatura cultural e ligeira, bem como de muito outro serviço tipográfico, e até cartográfico, ...e muito, muito mais.

...Em contrapartida poderiamos ter nós posições preferenciais em muitas das produções de Angola, que seriam aqui consumidas, ou espalhadas por toda a União Europeia, ou mesmo reexportadas para terceiros paises, em muitos casos com "draubaque".

Simplesmente tudo isto teria que ser negociado com um máximo de inteligência, honestidade e respeito, de parte a parte.

...E o processo levado ao ponto de Grandes Empresas Nacionais dos dois Paises.

...E o Luso-Crioulismo Angolano tudo facilitaria. ...Pois seria fácil a comunicação!

....Há concerteza um aspecto de que podemos ter absoluta certeza: Os Angolanos

gostam de Nós, ...preferem-nos a Nós, ...E Nós gostamos dos Angolanos.

...Todavia é preciso saltar do "abstracto" para o "concreto"! ...É preciso começar!

Para terminar, tudo o que esperamos é que estas linhas chamem a atenção de alguém com mais capacidade, menos idade, e em melhor posição do que nós, para estudar e, se lhe encontrar algum mérito, activar e levar a cabo um tal programa."

Cascais, 13 de Abril de 2007

José Antonio de Sá Carneiro

 

CRIOULISMO - DISSERTAÇÃO

                                                                                                   J. Sá-Carneiro

                                                                                                  (Memória  2007)

CAPITULO II

O ACTUAL CRIOULISMO JÁ NÃO DEFINE RAÇAS, MAS SIM CULTURAS

Os descobrimentos, e a expansão portuguesa que depois se lhes seguiu, tinham que nos levar ao encontro dos mais variados povos, bem como das suas respectivas culturas.

E, como é natural, até porque ao tempo eram demoradas as permanências nesses lugares tão distantes, levaram-nos também à fusão de muitas dessas culturas com a nossa, de europeus e portugueses.

De inicio, este fenómeno, que se verificou com extremo vigor no Oriente, e muito debilmente, por exemplo, no Brasil, pois que os índios americanos se mostravam arredios, teve talvez o seu maior desenvolvimento na costa ocidental da África, infelizmente em redor do que chamamos o "tráfico" esclavagista.

O vocábulo "crioulo" parece ter como étimo a palavra castelhana "criadillo", que julgamos que era usada nas Antilhas, pois que ao tempo, na costa de Àfrica, o dialecto que se usava era o "pidgin", que dizem ser muito parecido com o crioulo de Cabo Verde.

E voltando a citar: "É importante trazer para aqui uma das primeiras zonas da crioulização,  pouco mais de meio século decorrido desde o inicio da expansão portuguesa

-1415- nas costas africanas onde, com o tráfico, se iniciava esse processo de crioulização, transposto depois para outros continentes, mas com a mesma base escravista" (7).

"A relação do 'mundo crioulo' com o português foi assinalada em congresso realizado sobre as linguas crioulas no University College, pelo Prof Wallace Thompson, que formulou a ousada hipótese de uma origem única para todos os falares crioulos, que se encontraria no "pidgin" ou "proto-crioulo português". (7)

Permita-se-nos agora dar um salto no tempo, e passar a uma época já nos alvores literários de Angola..

Não falando de algumas publicações oficiais, da Imprensa Nacional, que apareceram nos primeiros anos do séc XIX, assim como umas tantas gazetas periodicas, que apareciam e desapareciam, o primeiro livro, impresso e publicado em Angola terá sido da autoria de José da Silva Maia Ferreira, era de poesias e intitulava-se "Espontaneidades da Minha Alma - Às Senhoras Africanas"

O autor era, pelo nascimento e educação, um crioulo de Angola, mas filho de pais portugueses.

Daí em diante foi profusa a produção literária angolana, sobretudo sabendo-se a exiguidade da sua população letrada, nos primeiros tempos.

O maior escritor angolano do Crioulismo foi, sem qualquer duvida, Mário António Fernandes de Oliveira (1934-1988), de quem acabámos de fazer algumas citações..

Nascido em Maquela do Zombo, aí fez os seus estudos secundários. Licenciou-se pelo Instituto de Cências Sociais e Politica Ultramarina, e doutorou-se, em 1985, na Universidade Nova de Lisboa, aí tendo sido professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Poderiamos referir centenas de escritores angolanos, e suas obras, mas este texto não passa de simples "esboço" de uma dissertação, pelo que vamos abreviá-lo.

Queremos assim mencionar dois livros, de literatura leve, que lemos nos ultimos tempos:

Quanto ao primeiro, a que atribuimos especial mérito, "Um Certo Gosto a Tamarindo", preferimos entrevistar, on line, o seu autor, que temos muita honra em ter por amigo, juntando a "entrevista" a este trabalho.

O segundo desses livros, um romance de José Eduardo Agualusa, chama-se "Nação Crioula", e não nos convenceu. Temos muitas dúvidas sobre o correr do seu texto, onde se fazem referências a Fradique Mendes,   mas o que mais nos chocou nessa obra foi o seu próprio titulo.

Chama "nação crioula" a Angola. ....Isso não há! Se é Nação não é Crioula, e se é Crioula não pode ser Nação. Uma coisa é a antítese da outra.

( E agora aproveitamos o ensejo para lançar a nossa "Ligeira Recensão" ):

...Angola é sim, um "Estado" com muitas "Nações".

..."Nação" significa um Território, normalmente não muito extenso, com uma só Raça, uma só Etnia e uma só Cultura, as mais das vezes com uma única Religião, ou uma Religião principal. "Crioulidade" ...é exactamente o inverso:

"Crioulidade" é a "umbrela" que a todos acoberta! ...E "Crioulismo o seu culto.

...De resto, parece-nos até perigoso, que num País com tantos grupos raciais e étnicos, que ainda há pouco saiu duma dramática guerra civil de quase trinta anos, se venham invocar ideias como "nação", "nacionalismo", etc.     ...Não parece de bom gosto!

 

Gostariamos de abordar também a vertente das "letras crioulas brasileiras", mas este texto já vai demasiado extenso, para os fins que tem que cumprir. De resto nem para isso estamos preparados.

Mas pensamos sempre que como expressão crioula não deve deixar de referir-se o "poeta naive" Catulo da Paixão Cearense.   ...Que, sendo "Naive",  ...é um "clássico"!

Também, sem dúvida, Gilberto Freire, sobretudo o seu "Luso-Tropicalismo".

E, cláro, Jorge Amado, de quem julgamos ter lido quase tudo o que nos apareceu em Angola.

Veríssimo, sendo um crioulo, de costela indiana, não é propriamente crioulo a escrever.

Joracy Camargo (Teatro) muito menos. ...É da época "europeia" do Brasil.

Mas já será um escritor crioulo, em moldes modernos, José Mauro de Vasconcelos.

Mas temos que nos lembrar que estamos a fazer um simples “sketch”   ...que já vai ficando comprido demais., pelo que é necessário dá-lo por findo.

______________________________

(7) Mário António Ferreira de Oliveira, A Formação da Literatura Angolana, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa 1997

CRIOULISMO – DISSERTAÇÃO

                                                                                J. Sá-Carneiro

                                                                                (MEMÓRIA     2007)

CAPITULO  I

O CRIOULO ORIGINAL ERA DE RAÇA BRANCA

É vulgar que se estabeleça a confusão entre "crioulidade" e "mestiçagem".

...Entretanto uma coisa nada tem a ver com a outra. Mestiçagem é a combinação de duas (E às vezes mais) raças.     Crioulidade  e crioulismo referem-se a sociedades e comunidades, que englobam  várias raças, em vivência conjunta, e que detêem uma  "cultura" própria.

Originariamente o "crioulo" era de pura raça branca. Mas, mais tarde, passou-se a chamar tambem "negro crioulo", ao que fora "nascido e criado na colónia". ( Brasil).

Vamos começar por algumas definições:

"Crioulo é o homem ou mulher brancos, originários das colonias", ..."negro crioulo é o nascido na colónia, em opposição ao proveniente do tráfico" (1)

" Créole est une personne de pure race blanche, née aux colonies".

"Creole is a term used originally from the 16th to the 18th century to denote white persons born in Spanish America of Spanish parents" (3)

"Creole is a descendant of French, Spanish or Portuguese settlers of Louisiana and the Gulf States who retains his special speech or culture." (4)

"Creole State is the Nickname of Louisiana" (4)

"Sabemos que pelo correr do Séc. XIX se passou a chamar também crioulo ao africano negro que falava e escrevia o português ( Ou francês ou castelhano ) e, naturalmente aos mestiços resultantes das duas raças. Passava  assim o   termo  "Crioulo" a definir e caracterizar uma determinada "cultura", em vez de qualquer conceito de 'raça' ". (5)

Também aos naturais do sul da India, Malásia e Indonésia, sejam de qualquer das raças indigenas, mais escuras ou mais claras, ou de origem puramente holandesa no caso da Indonésia, ou mestiços provenientes das suas combinações, se chama crioulos.

"Dialectos crioulos" são as várias formas de expressão usadas nas diferentes regiões, continentais ou insulares, e que têm por base as linguas europeias ( Português, castelhano, francês ou holandês ), conforme a proveniência do colonizador.

"A primeira vez que se nos impôs o uso do termo "crioulo" foi na caracterização cultural da cidade de Luanda, por nós entendida como uma " ilha" crioula. Dizíamos que a situação linguistica na cidade de Luanda, variável ao longo dos tempos, apresentava no século XVII formas de um crioulo generalizado na comunicação entre os moradores. (...) verifica-se uma diferenciação linguistica, quer do português, quer do quimbundo, através das suas mútuas aquisições". (6)

É verdade que, como fórma de expressão generalizada, nunca o crioulo se firmou em Angola. E é o português que, felizmente, como o inglês na India, a todos acoberta.

Como se entenderia Angola, falando como fala uma dúzia de linguas e dialectos, que vão do quicongo e quimbundo, ao humbundo e mokobal, até ao bosquimane ( ou mukankala) que é falado aos estalidos com a lingua?

...Mas a grande vantagem de Angola falar português ...é a de poder continuar a falar com Portugal. ...E não há dúvida de que o crioulo de Angola, referimo-nos ao homem, não ao dialecto, se sente, senão português, pelo menos luso-angolano.

E é essa feição luso-crioula de Angola que torna facílimo o entendimento e a colaboração, sejam quais forem os fins procurados, sociais, culturais, comerciais ou económicos, entre portugueses e angolanos, bastando afinal que ambos se respeitem e comportem com um máximo boa vontade e lealdade, para serem alcançados muitos objectivos, que qualquer dos dois, sozinho, dificilmente alcançará.

________

(1) Dr. Frei Domingos Vieira, Thesouro da Lingua Portuguesa, Ernesto Chardron,

e Bartholomeu de Moraes, Porto e Rio de Janeiro, 1871.

(2) Petit Larousse, 1960.

(3) Encyclopaedia Britannica (Micropaedia), 1978.

(4) Funk & Wagnalls Dictionary, J. G. Ferguson Publ. Company, Chicago, 1976.

(5) J. Sá Carneiro, in Raizes - Laços e Lingua, Nov. 2000.

(6) Mario Antonio de Oliveira, Luanda - Ilha Crioula, Agencia Geral do Ultramar, Lisboa 1968.

sábado, 23 de janeiro de 2010

CRIOULIDADE E CRIOULISMO

INTRODUÇÃO  A  UMA   DISSERTAÇÃO                       

                                                                                             (Memória - 2007)

Em redor de todo o Globo Terrestre, ocupando uma faixa de 46 graus, entre Cancer e Capricórneo, nos belissimos e riquíssimos territórios por onde os Europeus espalharam, durante quase cinco séculos, as suas colonizações, vamos hoje em dia encontrar, em vários estágios de desenvolvimento e estabilização, gigantescas comunidades crioulas.                                

É crioula praticamente toda a América Latina, exceptuando-se, talvez,   a Argentina e o Chile. 

E até nos U.S.A. se diz que New Orleans é a Capital do Creole State:     Luisiana.

São tambem crioulas, do outro lado do mundo, a Indonésia, as Filipinas, bem como o sul da India, da Malásia ...e um sem número de Ilhas por todo o Indico e Pacifico.

...Não é crioulo o Norte de Àfrica porque, na verdade, nunca se chamou crioula à combinação de Árabes, Negros e Berberes ( E os europeus ali não são muitos).

A esses foi dado o nome de Povos Arabisados, ...que será afinal a correspondência aos nossos Povos Crioulos.

Perfeitamente definido como País Crioulo, até mesmo com dialecto próprio, é o ex- português Cabo Verde, bem como a ex-espanhola Ilha de Fernando Pó.

Mas, descendo a costa africana, vamos encontrar a África do Sul com fortíssimas comunidades crioulas, aí  predominando o crioulsmo Afrikaner.     Mas também o temos Malaio e Indiano ,  e ,     ...e até Português.

­­­­­­­­­­­­­­___________________

 

E em Angola? ...Em Angola, até meio do Sec. XX, era quase totalmente crioula a parte civilizada da população. Quando chegámos a Luanda, em 1942, não havendo propriamente um dialecto angolano, era muito especial o sotaque doce e cantante com que ali se falava o português.   Era tambem deveras peculiar   a maneira de ser e o comportamento dos angolanos evoluidos, fossem brancos, mestiços ou negros. ( Em  Angola dizíamos “pretos”, para não nos responderem que  "Negro  é  o  carvão"! )                                                                                   No inicio dos anos 50, criado o colonato da Cela e aberta a imigração, começou essa comunidade crioula a diluir-se, engolida no meio de tanta gente que vinha de fóra.

Diz-se agora que era muito difícil ir para Angola, …que era precisa Carta de Chamada.

...Talvez fosse, enquanto não havia condições para receber ninguém.  Éramos muito pobres.   Em Luanda não havia casas de luxo, como cá, e íamos para a escola a pé, à torreira do sol. Não  existiam universidades, nem piscinas.     …Conservávamos os automóveis 10 ou 15 anos, e usávamos pneus recauchutados.

Aliás foi exactamente para a Cela que o Estado Português, pela vez primeira, financiou um movimento de instalação de colonos. Pois que, até aí, éramos nós,  afinal “colonos mais antigos”,  que,  a pedido do governo local, tínhamos que inventar empregos  para os recém-chegados.  E, a seguir,   financiar, pelo menos , os seus tempos de adaptação.

Mas depois veio a alta do Café, e agitou-se a comercialização dos Diamantes.

...E por fim descobriu-se o Petróleo. ...E, embora os lucros viessem todos para cá, a vida foi melhorando.

...E Angola já podia receber gente. ...E recebeu!

Quando lá chegámos, em 1942, havia 15.000 brancos em Luanda e 50.000 na colónia toda. Quando rebentou o terrorismo, em 1961, já Luanda beirava os 200.000 e Angola estava a caminho do meio milhão. O Censo de 1970, foi travado a meio, não sabemos porquê, mas constava, pelos bastidores que, com os mestiços, já se chegava ao milhão.

...Já havia ardinas, cauteleiros, e engraxadores brancos pelas ruas da baixa.

Nos anos 60 veio a tropa. E, num grande número de casos, uma vez desmobilizados, os soldados ( E mesmo os oficiais) ficavam lá. Poucos queriam voltar a Portugal. Ou vinham a Portugal casar e tornavam para Angola. ...quando não casavam lá ...e rapidamente aparecia a prole.

...Por essa altura foi o Crioulo por completo submergido.

...Já não se ouvia o "sotaque".      ...O Crioulo, preto, branco ou mulato,   ...tinha desapareccido!

     Cascais,  Março de 2007                J. Sá-Carneiro